Autor: Vicência Jaguaribe

Manhã de janeiro

"Manhã de janeiro.
Manhã de sol indeciso:
não sabe se vai
não sabe se fica.
Não aquece
nem deixa que o frio baixe.
É o primeiro sol do ano..."

Um sibite entre quatro paredes

"O sibite entrou pela janela da cozinha e fez o reconhecimento do terreno. Assustou-se com os gritos: Um passarinho dentro de casa! Bota ele pra fora! Mas era exatamente isto o que ele queria – sair dali! Ficou voando dentro do apartamento. Ansiava por encontrar uma saída, achar o caminho de volta, retornar para junto dos companheiros, que esperavam lá fora..."

"Deus está morto"

"No aforismo 125 da obra A Gaia Ciência, publicada em 1882, aparece pela primeira vez em Nietzsche a declaração de que Deus está morto, pronunciada por um louco, que dizia procurar Deus pelas ruas com um candeeiro aceso. Essa afirmação, mal interpretada, foi alvo de críticas e recheada de conotações negativas e ateístas. Com ela, o indevidamente chamado filósofo do niilismo, ao contrário..."

A presença

"Pois é! Ela chegou inesperadamente, com sua presença marcante e prendeu-me em casa por um dia inteiro. Há muito não a via, ou vi-a rapidamente. Foi minha companheira quase inseparável dos quinze aos cinquenta ou cinquenta e cinco anos. Conhecemo-nos, portanto, quando eu era adolescente, e ela ficou ao meu lado por muitos anos. Não. Não pensem que falo de uma parenta ou de uma amiga muito querida e especial. Ao contrário..."

Retorno à casa materna

"Mundo velho sem porteira! Nunca esquecera a frase da velha Bibiana, personagem de O tempo e o vento. E repetia-a para si mesma, quando se surpreendia com os acontecimentos que desorganizavam o bom senso da rotina. Pois foi essa frase que ela sussurrou quando o carro parou em frente à casa dos pais: Mundo velho sem porteira..."

Que há lá no sobrado?

"Lá em cima, no sobrado,
Há um mundo encantado
Que abre todas as portas
Para quem não se importa
De virar as próprias costas
Para o real traiçoeiro
E lançar suas apostas
No irreal feiticeiro..."

De cima da ponte

" A minha é uma terra seca, como a maioria das terras do sertão cearense. Nela não se cultivam flores nem frutas nem legumes, a não ser banana, batata doce e coco. Quase tudo vem de fora. É, pois, uma cidade pobre em produção de alimentos, em belezas naturais — e, diga-se, para ser honesto, em realizações culturais também..."

A Velha Senhora

"Entro no quarto dividido em dois pequenos aposentos, separados por uma fina cortina de tecido. Puxo a cortina, atrás da qual a vejo, encolhidinha, deitada em uma cama de hospital. O ar condicionado alivia o calor que castiga solto a cidade. Nem a proximidade do mar, este ano, age sobre o clima. Uma das cuidadoras encontra-se perto da cama, e eu me aproximo. Não posso conter uma lágrima teimosa. Já vi este filme, penso – minha mãe, que morreu há três anos, passou sete em uma cama como esta...

A outra negra Fulô

A outra negra Fulô

(Inspirado no poema
“Essa negra Fulô”,
de Jorge de Lima)

" A chegada da negra Fulô no Engenho do Monte foi um xeque-mate na felicidade da Sinhá, que casara virgem e confiante no amor de folhetim que sempre pensara dedicar ao marido, quinze anos mais velho do que ela. O Sinhô — era assim que o tratava — conhecera-a quando ela ainda era um bebê. De olho no patrimônio do velho Coronel, pai dela, empenhou-se naquela união, que as duas famílias trataram de sacramentar com o empenho da palavra e de dois ou três fios dos bigodes..."

O casarão abandonado

O casarão será fechado?

O casarão,
com suas duas varandas de frente,
será fechado.
Morreu a última das seis irmãs.
O casarão vai ser fechado..."


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