25/03/2010

(Vicência Jaguaribe)

Estamos vivendo os dias do julgamento do casal Nardoni, acusado de matar a menina Isabelle, filha de Alexandre Nardoni e enteada de Ana Carolina Jatobá. Os canais de televisão fazem uma cobertura meio espetaculosa, entrevistando juristas e transmitindo boletins com os últimos episódios ocorridos no Fórum e arredores. Depois de dois anos, a sociedade brasileira, ou boa parte dela, torna a mobilizar-se em torno do assassinato de uma criança de cinco anos, supostamente praticado pelo pai e pela madrasta – crime inconcebível, inimaginável; crime sem atenuante e sem perdão.
Falo em assassinato supostamente praticado, porque todos nós acusamos o casal partindo de indícios técnicos, de provas técnicas. Não temos testemunha ocular que possa nos garantir: Eu estava lá. Eu vi. É claro que as circunstâncias do crime, o comportamento do pai e da madrasta, a versão mais do que surrealista da presença de uma terceira pessoa que teria entrado no apartamento e matado a criança, tudo nos leva a crer que foram eles os assassinos. Em países mais adiantados, criou-se uma cultura que dá mais crédito às provas técnicas do que aos testemunhos humanos. Nesses países, um exame de DNA, um teste para garantir que determinadas manchas são de sangue, provas laboratoriais de que determinadas marcas só poderiam ter sido deixadas por determinadas circunstâncias e não por outras, reconstituição dos fatos para mostrar que certas versões seriam impossíveis são muito mais confiáveis do que a palavra de uma pessoa, que poderia ter sido vítima da emoção ou do nervosismo do momento; que poderia ter sofrido ilusão de óptica ou ainda estar sendo pressionada por alguém. Mas, aqui entre nós, ainda há uma confiança maior na palavra de uma testemunha ocular do que nos resultados obtidos pelo trabalho dos peritos criminais.
E aqui estamos nós, aqui estou eu a dizer para todo mundo e, para mim mesma, que não tenho dúvidas quanto à culpabilidade do casal Nardoni. Mas lá, no mais recôndito ponto de meu espírito, eu me pergunto: E se não foram eles?
A dúvida se articula não só em decorrência da falta de uma testemunha, mas também em consequência das relações de parentesco entre a vítima – a menina Isabelle, de cinco anos – e seus algozes, pai e madrasta. Está além de nossa capacidade de aceitação e de compreensão – e só aceitamos o que compreendemos – que um pai mate uma filha de cinco anos, ou proteja alguém que a tenha matado, mesmo que esse alguém seja a segunda esposa. Um crime dessa natureza desestrutura nossa noção de racionalismo e de humanidade. Desequilibra os pilares sobre os quais foi construída a civilização. Nega um dos sentimentos mais caros ao ser humano – o amor dos pais pelos filhos – e a predisposição de um pai para amar um filho e defendê-lo, predisposição baseada não só em reações instintivas mas também e principalmente em valores culturais. Negar esses sentimentos é negar que existe um marco que separa o território humano – racional e consciente – do território animal – irracional e instintivo.
Admitir que um pai foi capaz de matar ou ajudar a matar uma filha de cinco anos, uma criança indefesa, que aprendeu a ver nele não um agressor mas um protetor, é reconhecer o rebaixamento do ser humano civilizado, que vive na época dos milagres tecnológicos, isto é, o rebaixamento do homo technicus à dimensão dos hominídeos das cavernas. É pensar em uma categoria que poderíamos classificar de homo abjectus, um ser desprezível, vil, ignóbil, que se situa em uma dimensão paralela à do homo rationales. Esse homem atravessaria todas as épocas da história humana, ou seria uma criação dos tempos pós-modernos?
Tenho a convicção de que as pessoas que alimentam algum resquício de dúvida sobre a participação de Alexandre Nardoni, como protagonista ou coadjuvante, no drama doloroso que foi o assassinato da menina Isabelle, sua filha, construíram um mecanismo de defesa. Defendem-se da barbárie, da insanidade e da falta de escrúpulo que ameaçam a sociedade em geral e cada ser humano em particular cada vez que um homem ou uma mulher resolve abdicar de sua condição de criatura humana.