Pronto, acabou a expectativa. Até parece que o dia amanheceu mais calmo. E nós, mais leves, mais tranquilos. Nos jornais, nos sítios da Internet, a manchete esperada: “O casal Nardoni, condenado pela morte da menina Isabella”. A sensação da justiça feita. Da impunidade finalmente ameaçada nesta nossa Terra de Santa Cruz.
Fiquei ontem, até o início da madrugada, em frente ao aparelho de televisão, à espera do veredicto. Que sentimento me dominava? Estava apreensiva. Haveria justiça no final daquele julgamento? O Promotor teria convencido os jurados de que não poderia haver uma terceira pessoa na cena do crime? Como disse em crônica anterior, lá na grota mais recôndita de minha alma, havia a interrogação: E se não foram eles? Hoje não me faço mais essa pergunta. Por uma série de razões. Dentre essas razões, o comportamento do advogado da defesa, que não defendeu uma tese, mas insistiu em contraditar, sem autoridade, a palavra técnica autorizada. Dentre essas razões, um elemento importante que havia esquecido: o comportamento da avó paterna da Isabella.
A cena de dor e de revolta por ela protagonizada na noite do crime – que os canais de televisão reprisaram ontem à noite – e a sua ausência de cena durante os dois anos que se seguiram, juntamente com seu aparecimento relâmpago na sala do julgamento, dão o que pensar. Disseram-me que ela está separada do marido, o advogado com cara de poucos amigos, que gritou, durante esses dois anos, que o filho é inocente. Então, fiz a mim mesma as perguntas que muitas outras pessoas devem também ter feito a si próprias? Por que essa senhora não seguiu o exemplo da família e foi para a frente da batalha gritar a inocência do filho, como faria qualquer mãe em situação normal. Salvo engano, ela nunca se manifestou em defesa do filho. Por quê? Será que ela não tinha certeza dessa inocência? Ou pior ainda: Será que ela tinha e tem certeza da culpa do filho? Será que ela foi proibida, pelo ex-marido e pelas filhas, de se manifestar? Muito estranho! E mais estranho ainda que não se tenha explorado essa figura esquiva – a mãe do Alexandre Nardoni.
Hoje, ao acessar o UOL, talvez tenha expulsado a última dúvida do espírito, ao ver a fotografia de Ana Carolina Oliveira, a mãe da menina Isabella, fotografia que pus no início desta crônica. É o retrato da dor. Da dor controlada, que persiste sem alarde e que é, por isso mesmo, mais dor. O rosto parece que se nega a obedecer ao comando do cérebro, e o que se vê não é um sorriso – que ela deve ter tentado – mas um esgar, que atinge nossa sensibilidade como uma navalha afiada. É a mãe da pequena vítima que, a despeito da condenação dos algozes da filha, vai continuar com sua dor até o fim de sua vida. É, porque, como ouvi em um depoimento da atriz Christiane Torloni, que perdeu um filho tragicamente, “quem foi que disse que se supera a morte de um filho?”
Acho que jamais participaria daquelas manifestações explícitas de vitória ou de vingança que vi na porta do Fórum. Acho que jamais soltaria fogos de artifício em uma situação como aquela. Digo acho, porque de certas coisas a gente só tem certeza quando as vivencia. Mas estou satisfeita com a decisão do júri, com a sentença do juiz. Sei que a dor da Ana Carolina Oliveira não vai diminuir com a condenação do casal Nardoni. Mas essa condenação evitará que à dor da perda da filha se some a revolta e a inconformação com a impunidade.