(Para a família da Dona Eunice Fernandes Magalhães.)
O espírito da Velha Senhora
Resolveu, enfim, ir embora.
Levantou-se com destreza,
Pegou o chapéu de sol e a bolsa.
Olhou o relógio com sutileza
E constatou: em cima da hora.
Cansara da vida há muito.
E há muito dera-lhe as costas.
Ignorara-a como a um desafeto
A quem não se quer dar uma reposta.
Vida vegetativa – declararam os especialistas.
Não sabem eles – pobres ignorantes –
Que a impossibilidade corporal e a demência
Não são outra coisa que decisões da consciência,
Para que não seja a travessia
Por demais custosa ao viajante.
Para que não haja revolta da alma
Para que o corpo não perca a calma.
Não precisou de despedida
Não quis ouvir encômios
Nem carpideiras sofridas
Quando o adeus anunciou a ida.
Saiu da vida como nela entrou:
Sem mágoa, serena e despojada
Com um único bem amealhado:
O amor que recebeu e que doou.
seg, 29/03/2010 - 09:45
A lucidez está acima de qualquer ação do corpo. Seu texto é sereno e forte.
Parabéns!