(Para a família da Dona Eunice Fernandes Magalhães.)

O espírito da Velha Senhora

Resolveu, enfim, ir embora.

Levantou-se com destreza,

Pegou o chapéu de sol e a bolsa.

Olhou o relógio com sutileza

E constatou: em cima da hora.

Cansara da vida há muito.

E há muito dera-lhe as costas.

Ignorara-a como a um desafeto

A quem não se quer dar uma reposta.

Vida vegetativa – declararam os especialistas.

Não sabem eles – pobres ignorantes –

Que a impossibilidade corporal e a demência

Não são outra coisa que decisões da consciência,

Para que não seja a travessia

Por demais custosa ao viajante.

Para que não haja revolta da alma

Para que o corpo não perca a calma.

Não precisou de despedida

Não quis ouvir encômios

Nem carpideiras sofridas

Quando o adeus anunciou a ida.

Saiu da vida como nela entrou:

Sem mágoa, serena e despojada

Com um único bem amealhado:

O amor que recebeu e que doou.