Leveza

Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.
E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.
E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.
E o desejo rápido
desse antigo instante,
mais leve.
E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.

(Cecília Meireles)

O sibite entrou pela janela da cozinha e fez o reconhecimento do terreno. Assustou-se com os gritos: Um passarinho dentro de casa! Bota ele pra fora! Mas era exatamente isto o que ele queria – sair dali! Ficou voando dentro do apartamento. Ansiava por encontrar uma saída, achar o caminho de volta, retornar para junto dos companheiros, que esperavam lá fora. Só de pensar que poderia permanecer prisioneiro daquelas paredes – não pensou em quatro, porque o apartamento tinha muito mais que quatro paredes – tremia de medo.

Não! Não fora aprisionado por nenhum ser humano. Ele entrara no apartamento sozinho e agora não sabia como sair. Fora imprudência sua.

A dona do apartamento – na certa, por gostar de pássaros, e isso merece um voto de louvor – comprara dois bebedouros para os ditos cujos e pendurara um na janela da cozinha e outro na sacada dos quartos. Enchia as pequenas peças com água açucarada ou com água nectarada, e os bichinhos, sibites e beija-flores, maravilhavam-se com aquelas misturas. Mas não suponham que era a decantada bebida dos deuses a que mais lhes apetecia. Não. Era a velha garapa de água com açúcar.

O fato é que o inexperiente sibite, quase implume ainda, entusiasmado com a saborosa beberagem, confundiu-se na claridade do meio-dia e, em vez de voar em direção ao amplo espaço livre, voou para dentro do apartamento. As pessoas da casa, penalizadas, abriram portas e janelas, e tentaram incentivá-lo a sair, com toalhas, com palmas e outros barulhos. Nada. O sibite voou de uma sala para outra; de um quadro para outro; de uma prateleira para outra; de um lustre para outro. Quando cansava de tanto voar, já arfando, refugiava-se em um local mais alto, inacessível ao que ele supunha ser a agressão humana. Acostumado a associar os movimentos dos homens a gaiolas, a prisão, o instinto de sobrevivência alertava-o. E lá ficava ele no lugar mais distante do alcance dos homens – na prateleira mais alta, no quadro mais alto ou nos altos lustres. Só não pousou no busto de Palas Atena, como o corvo de Poe, porque não havia, no apartamento, um busto de Palas Atena, a deusa da sabedoria, nem ele era um agourento corvo.

Uma voz mais sensata sugeriu que o deixassem em paz. Mais cedo ou mais tarde, ele encontraria o caminho da liberdade. E cada um tratou de retomar sua vida. E o apartamento, quase vazio – a não ser pela proprietária, que, em seu gabinete de trabalho, quase esqueceu o passarinho – , passou a ser, para o pequeno sibite, um território livre, naquela sua guerra particular pela reconquista da liberdade.

E ganhou o corredor e os dois quartos. De vez em quando, entrava no gabinete, silenciosamente, quem sabe desconfiando de antemão da dona do apartamento, que, sentada ao computador, nem sequer o pressentia.

O pássaro pousou em vários livros e talvez até se tenha aliviado em cima de algum deles. Quero pensar que aquela era uma ave que gostava de livros. Agia como se estivesse em uma biblioteca, voando de um volume para o outro com um voar muito discreto, sem emitir um único som. Pousava em cada exemplar, beliscava-o um pouco e, depois, fechava os olhos por um bom pedaço. Parecia ser o beliscado o método de leitura usado na República dos Pássaros, e o fechado dos olhos, uma espécie de reflexão sobre o que fora lido.

Às vezes, no entanto, a ânsia de liberdade falava mais alto, e ele começava a voar mais rápido, saía do gabinete e ia para as salas tentar acertar o caminho do espaço sem paredes. E jogava-se contra o vidro das janelas, uma, duas, três... dez vezes... até cansar e provavelmente machucar-se; e mais uma vez pousar para descansar. Alguns dias, quando um movimento extraordinário como este acontecia, alguém da casa conseguia prender o pássaro. Então, ia até a janela, abria as mãos e entregava-o à imensidão dos ares.

Mas, naquele dia, ninguém conseguiu essa proeza. Quando a dona do apartamento fechou o computador e foi deitar-se, o sibite ficou vigiando o gabinete. Antes de deixá-lo sozinho, ela ainda resgatou a Sony da desarrumação dos livros e explodiu alguns flashes na direção dele. Era um momento único. Merecia um registro fotográfico.

O que houve, durante a noite, não se soube nem nunca se saberá. A última evidência foi a dona do apartamento ir dormir e o sibite ficar de vigia no gabinete. Não se saberá se o que ocorreu teve origem natural ou se foi algo provocado. Só chegou ao conhecimento de todos que o sibite fora encontrado bem cedo, pela empregada da casa. E estava morto.