PARTE I – Lembranças

O céu está bonito hoje. Com aquelas nuvens acinzentadas cortando as estrelas, como você gosta. “Olha, loira. Nem tudo precisa ser perfeito pra ser digno de apreciação” Dizia ele, sorrindo, deitado ao meu lado, uma mão em meus ombros e a outra esticada pra o alto, como se tentasse alcançar o céu. Ele se assemelhava tanto a um garotinho de 5 anos quando fazia isso que me fazia sorrir, quase sem perceber, achando maravilhoso aquele céu manchado. Balanço a cabeça, tentando espantar as memórias. Vejo as estrelas pela janela, que continua escancarada, do mesmo jeito que você a deixara tantos dias atrás. Uma daquelas chuvas de verão ridiculamente fortes e inesperadas começa, molhando todo o chão e engrossando a poça em cima do criado-mudo. Não me importo. Gostaria que a natureza levasse esse quarto com ela. Deixo então as luzes apagadas – desconfio que essa lâmpada esteja queimada há alguns meses – janela aberta, porta trancada. Mas meus pés insistem em destrancá-la todo dia e entrar nesse santuário-quase-imaculado onde se eu ficar bem quieta, posso até ouvir sua respiração. Respiro fundo, caminhando a passos lentos até a parede oposta à janela, onde as gotas não conseguem chegar. Sento no chão, mão na cabeça, você dentro dela. 34 semanas. Quase 7 meses. O mais absurdo é que mesmo depois desses duzentos e não-sei-quantos dias, ainda não aceitei que você foi embora. Continuo conversando comigo mesma, balbuciando palavras desconexas a todo o tempo, na esperança de algum milagre – ótima escolha de palavras, srta cética-não-tão-cética-assim – aconteça e você venha com aquele sorriso bobo, as mãos para o céu, “Olha, pequena. Hoje não há nuvens, hoje só há eu e você”.

PARTE II - Ilusão

Quem eu estou enganando? Ele não vai voltar. Você percebe que está fazendo papel de ridícula, garota? Sete meses perdidos. Em troca de um amor que não se importa nem em procurar saber se você ainda está viva ou mofando em um canto da casa como aquele livro bobo sobre coelhos que ele deixou. Só não pareço ainda mais estúpida porque a única pessoa que tem me visto é o espelho, que por sinal, juro que ouvi um “tolinha!” saindo de dentro daquelas bordas envelhecidas. Mas também, o que eu queria? Que ele voltasse e dissesse que ainda me ama? Que precisava de espaço? Não, não é isso. A verdade é que simplesmente nunca existiu amor, só uma coisa louca que eu usava de inspiração e ele de distração. Isso. Só isso. Não há motivo para saudade e muito menos para tristeza. Foi uma troca de favores que durou mais tempo do que o previsto e passou dos limites do aceitável. Um exagero, dos grandes, como tudo que eu sempre fiz.

PARTE III - Estupidez

Pego o porta-retrato, atiro na parede. Lágrimas salgadas não param de escorrer do meu rosto. “Estúpida, estúpida, estúpida” repito para mim mesma há quase dez minutos. O único exagero foi achar que aquela droga toda fora só uma necessidade de inspiração. Não, não foi só isso. O que houve entre nós foi aquele tipo de situação em que você jamais imaginaria uma pessoa como eu metida nela. A princesinha usou toda a sua força para lutar por aquele relacionamento, ficando do lado dele em toda e qualquer situação, independente do quão desesperado – e potencialmente perigoso – ele estava. Ela dedicou quase dois anos de sua vida para praticamente virar esposa dele, largando sua vida para dar uma chance aos dois. Que estúpida. Ele foi embora, ele a deixou, e não era a primeira vez. Ela chamava isso de “Momentos de Histeria de Baby B”. Baby B, ela o chamava assim e ele odiava. Ele merecia, realmente parecia um bebê quando teimava com alguma coisa e só virava um homem novamente quando conseguia – o que era admirável para quem vê e insuportável para quem convivia. Dessa vez, não foi um momento de histeria. Ele desistira. Desistira dela, logo dela, que apesar de todos os ataques de loucura – que ele, com uma voz arrastada cheia de sarcasmo, adorava chamar de “Momentos de Histeria da Princesinha da Mamãe” – jamais saíra do lado dele e nem dera nenhum ultimado do tipo se-conserte-ou-vá-embora. Ela aceitava, dava alguns berros agudos com ele, o chamava de patético, mas sempre o levava para debaixo do chuveiro depois de voltar, completamente bêbado, de uma daquelas fugidas de três ou quatro dias que ele dava em seus momentos de histeria. Quando ele foi embora, estava sóbrio, sem nenhum ataque emocional em vista. Estava quieto, se recusando a demonstrar qualquer sentimento bom – aqueles momentos doces olhando as estrelas eram raros como um cometa. Mãos nos bolsos da calça jeans, caminhei até ele. “O que houve?”. Nada. Silêncio. Ótimo, pensei. Agora é a vez dos momentos de não-histeria. Dei um sorriso de lado com esse pensamento, ainda esperando uma resposta. Então depois de dez ou quinze minutos, ele se virou para mim. “Tchau.” E foi embora. Simples assim. Cansou. Parabéns, baby, conseguiu atiçar a princesinha da mamãe. “O que raios você pensa que está fazendo? Vai embora assim, simplesmente? Sem me dizer nada?” “Acorda, Larissa. Você está se ouvindo? É sempre assim. Você acha que é minha mãe. Eu estou ABSURDAMENTE CANSADO de você. Me deixa em paz”. Uma facada no estômago provavelmente teria doído menos. Fiquei sem reação, completamente paralisada, olhando enquanto ele subia na moto e saia acelerado. Não chorei até completar um mês. As lágrimas só caíram quando a lua nova chegou e ele ainda não tinha aparecido.

PARTE IV - Superação

Hoje é dia cinco de novembro. Completa um ano desde que ele foi embora e dois meses que finalmente tive coragem de sair de casa. Estou me saindo bem. Melhor do que eu imaginava. Já não olho o céu – comprei cortinas novas e todos os cômodos estão sendo agraciados com sua presença – e o quarto – aquele quarto – é meu estúdio. Pensei que jamais fosse me sentir bem escrevendo naquele lugar cheio de lembranças, mas depois de uma reforma e umas boas mãos de tinta nas paredes, se transformou em um lugar bem agradável. Ainda penso nele – dois anos não serão apagados assim tão facilmente, ainda mais dois anos tão… eternos – mas não com tanta freqüência assim. Cheguei a conclusão de que ele não ter voltado foi o que poderia me acontecer de melhor. A vida que eu levava era cruel demais para uma “burguesa”, como ele me chamava. Mereço alguém que me ame. Mereço amar sem ter que provar isso a todo o tempo. Escrevi um livro, aliais, o finalizei. Eu já havia começado a escrever quando ainda estávamos juntos. Era um romance sobre um casal complicado, mas que tinham o amor do seu lado. Era. Agora é um drama com direito a morte trágica e luto eterno. Ficou bonito, acho. Bonito, mas não perfeito. Ele gostaria da história se seu personagem não acabasse fadado a sofrer eternamente pela morte da amada. Por que o matar na minha história se posso fazê-lo sofrer eternamente? Eu respondia com um sorriso no rosto para todos que me perguntavam o motivo da morte da personagem feminina em vez do suposto antagonista. Amanha é a festa de estréia e noite de autógrafos. Nunca me senti tão realizada como agora.

PARTE V – Penhasco

Dizem que quanto maior a subida, pior é a queda. Era a noite de autógrafos. Estava particularmente bonita em um vestido vermelho que dizia muito mais “serei a protagonista da versão cinematográfica!” do que “Oi, meu nome é Larissa e eu sou uma escritora séria”, mas quem se importa? Eu estava na minha festa, na minha noite e deslumbrante. Eram oito horas quando sentei atrás da enorme escrivaninha de cerejeira e comecei a distribuir autógrafos. Sorrir, fazer algumas perguntas, responder a outras, assinar e pronto, próximo. Era muito mais excitante nos meus delírios adolescentes de algum dia fazer sucesso do que na realidade. Para ser sincera, era bem entediante. Minhas bochechas já pediam socorro, me implorando para parar de sorrir, e eu já tinha colocado meu cérebro no piloto automático. “Boa noite, e o seu nome é?” Disse sem nem olhar para quem estava a minha frente, minhas mãos já na cópia de quem-seja, pronta para rabiscar um “para meu amigo fulano, de Larissa Tavares” quando reconheci a voz. “Bruno. Mas pode dedicar a Baby B”. Quase não acreditei. Espero que algum dos muitos fotógrafos que estavam na noite tenha capturado minha expressão naquele momento, porque eu realmente gostaria de vê-la. “O-que-voce-esta-fazendo-aqui”, disse tão rápido e tão baixo que duvidei que ele pudesse ter ouvido. “Desculpa, Lari. Eu sou um bobão. Eu sou um grande bundão, um grande Baby B”. Devo ter comido algumas moscas, porque minha boca simplesmente não conseguia ficar fechada. Comecei a rir. Alto, histérica, surpreendendo não só Bruno, mas meu editor e grande parte dos convidados, que conseguira ouvir minha voz. “Você tá de sacanagem, né? Bruno. Você está sendo estúpido. Vá embora.” Estiquei o livro para ele. “Não, Larissa. Não vou te deixar sozinha de novo. Eu te amo. Eu sempre te amei. Eu… eu sinto sua falta como eu jamais imaginei ser possível. Eu não consigo passar uma noite sem olhar para o céu e ver seus olhos nele. Lari… me dá outra chance. Cuida de mim. Sabe, como nos velhos tempos. Eu, ridículo, perdido e você, minha, sempre.” Mais de cinqüenta xingamentos diferentes passaram por minha cabeça naquele momento, mas ao invés de acabar com a minha reputação na frente de todos os meus amigos, resolvi respirar fundo e sorrir. Se eu aprendera alguma coisa com Bruno, fora a ter paciência. Peguei o livro de volta, escrevi rapidamente na minha letra pequena e desajeitada que ele sempre chamava de desleixada. “Espero que goste do seu personagem. Boa sorte, boa vida. Que você seja feliz e faça alguém feliz. Larissa Tavares”. Me levantei, peguei a mão esquerda dele e coloquei o livro nela. “Obrigada por tudo. Você me fez crescer. Espero que você também cresça, algum dia. Tchau, Bruno. Até nunca mais”. Ele foi embora, aquela cara de cachorro triste que um dia me fizera ter todo o instinto maternal do mundo e jamais querer largá-lo agora me dando ânsia de vômito. Aparentemente, meu olhar fora forte o bastante para ele entender o recado, já que segundos depois sussurrou “Se cuida, loira. Sinto muito” e foi embora. Talvez eu seja a exceção a regra, ou eu simplesmente ainda não cheguei ao topo. Não foi dessa vez que eu caí. E a única certeza que eu tenho é que quando eu cair não será por ele.

(Publicado em www.solabeatitudo.tumblr.com)