Um amigo meu, alemão, uma vez me confessou que não conseguia rir de piadas de judeu – por motivos óbvios. As gerações alemãs mais jovens, que sequer viveram os horrores da Segunda Guerra Mundial, também carregam o peso da culpa e da dívida impagável. Eu, então, lhe disse, num tom de quem entendia o que ele sentia: - Nem eu, de piadas de negros. Ele não sabia, mas tenho uma irmã casada com um negro, com quem tem três filhas mulatas. O riso provocado pela piada preconceituosa é um riso amargo, que, além de não atingir todos os presentes, deixa no ar certo constrangimento. Quem for sensível o suficiente e puder compreender, compreenda.
O riso provocado pela ingenuidade, pela ausência de intenções de ofender, pela ausência de preconceito, o riso que advém da simplicidade é descontraído e prazeroso. No caso do riso provocado pelas piadas, pode-se dizer que são as piadas mais ingênuas que mais nos fazem rir.
Greimas, na obra Semântica Estrutural: pesquisa de método, tenta explicar a estrutura da anedota e, como consequência, entender o que provoca o riso nesse tipo de texto. Segundo o teórico, o texto anedótico apresenta duas isotopias, ou duas lógicas de leitura. O leitor começa a ler o texto seguindo certa lógica e, de repente, no desfecho, percebe que a lógica que o orientou até aquele momento deve ser substituída por outra. E o riso decorre exatamente do choque entre os dois sentidos: “o prazer espirituoso reside na descoberta de duas isotopias diferentes dentro de uma narrativa supostamente homogênea”. Acrescenta Greimas que a heterogeneidade das isotopias pode decorrer do confronto entre duas sequências do discurso que se opõem, ou da escolha das personagens que também se opõem por apresentarem mentalidades heterogêneas: normais vs loucos; adultos vs crianças; humanos vs animais.
Há uma piada que costumo contar e que provoca muito riso. Sempre digo que, de tão besta e sem graça, ela desafia a mais carrancuda das pessoas. Essa quem me contou foi minha prima, Carla Escóssia. Havia um homem que passara a maior parte de sua existência procurando o sentido da vida. Viajara por quase todo o mundo, visitara filósofos, mestres, doutores; sacerdotes católicos, rabinos, pastores e imames; pais de santo e pajés, e ninguém conseguira dar-lhe a ansiada resposta. Foi então que um conhecido lhe deu a indicação: morava, no Tibete, um velho e sábio monge, o único homem no mundo que saberia dizer-lhe qual o sentido da vida. O nosso homem não pensou duas vezes – mandou-se para o Tibete, mais especificamente para a aldeia onde morava o monge. Na hospedaria, mandaram-no procurar um determinado rio, em cujas margens o sábio costumava meditar. De longe, o viajante viu a figura, na clássica posição meditativa e, com cuidado e respeito, aproximou-se:
- Mestre, perdoe-me perturbá-lo. Mas eu estou cumprindo os meus últimos dias neste mundo e não consigo responder a uma pergunta que sempre me fiz: Qual é o sentido da vida? E isso me deixa muito infeliz.
- Meu filho, falou o monge com sua fala zen, a vida é um rio.
- E é!? Exclamou o homem, surpreso com a aparente simplicidade da resposta.
- E não é não? Perguntou o sábio, com cara de espanto.
Ninguém consegue ficar sério ouvindo essa pequenina história. O que nos faz rir, nessa historieta? É exatamente o choque entre o que se esperava que acontecesse (que o monge desse uma resposta convincente ao viajante, já que era um sábio) e o que aconteceu (diante da perplexidade do viajante, o monge ficou mais surpreso e confuso, revelando que não somos detentores de todos os conhecimentos do mundo). E as pessoas que ouvem essa anedota tendem a ficar empregando as duas últimas frases do diálogo, nas situações discursivas em que elas se encaixam: - E é!? – E não é não!?
Outra piada tão ingênua como a que terminei de apresentar é a do careca. Esta é irresistível. Um homem já havia perdido quase todos os cabelos. Só lhe restavam seis. Pela manhã, no espelho, ele penteava os seis fios: três para a direita, três para a esquerda. Um belo dia, caiu um fio. Então, o homem penteou dois fios para a direita, dois, para a esquerda e um, para cima. Dias depois, caiu mais um, e ele ficou penteando dois para a esquerda e dois para a direita. Mais alguns dias e outro fio cai. O homem, sem problemas, penteou um para a esquerda, um para a direita e um para cima. Em seguida caiu outro. O homem penteou um para a esquerda e outro para a direita. Quando caiu mais um, ele postou-se em frente ao espelho, passou a mão pela cabeça, como se despenteasse uma cabeleira fechada, e disse: Ah! não vou mais perder meu tempo, não, deixa despenteado mesmo. Também nesta anedota há o confronto entre o que se esperava e o que aconteceu: esperava-se que o homem se perturbasse com a careca, e eis que ele trata o único fio de cabelo que lhe restava com indiferença, como se tivesse a maior e mais bela cabeleira do país.
Este fim de semana, indo almoçar na casa de amigos, ouço mais uma piada ingênua. Estávamos sentados nos sofás da sala de visitas, esperando os demais convidados, quando o dono da casa, já meio alegre, contou:
Dois amigos encontraram-se após muitos anos e, na conversa, perguntaram pela família um do outro. O amigo A, que tinha dois filhos, disse que os filhos iam bem. Um era advogado e o outro engenheiro civil, estavam bem empregados e já haviam constituído família. O amigo B, com o ar de quem se acha superior, informou que ele próprio tinha uma vida confortável, e os filhos viviam muito bem, sim, senhor. Um dos rapazes era médico, com clínica montada, e o outro, era engenheiro e ganhava muito bem na Petrobrás. O amigo A, então, lembrou-se: - E a sua filha? Você não tinha uma menina? O amigo B, sem perder a pose, explicou: - Ah! a minha filha vai bem. Casou, tem filhos. O diabo é que o marido deu pra corno.
Essa piada, além de nos levar a rir, mostra-nos um tipo que é muito comum na nossa sociedade – aquele que quer levar vantagem em tudo. O amigo B, não querendo enxergar o lado negativo do comportamento da filha, responsabiliza o genro, a vítima da história, pelo erro cometido por ela. Sua família era perfeita. Qualquer coisa que pudesse atingir seu nome era da responsabilidade dos outros. O choque entre o que se esperava que o amigo B dissesse sobre a filha e o que ele realmente disse é o que nos provoca o riso no final dessa pequena história.
Eu, via de regra, não sei esconder o que sinto. Quando não gosto de uma coisa, demonstro isso pelo olhar, pelos gestos, pela postura e, dependendo da situação, pela palavra. Não gosto de piadas preconceituosas. Mas não gosto desde bem antes de inventarem o politicamente correto, de que também não gosto. De modo que sempre desencorajo o contador dessas historinhas de mau gosto. Nada mais fácil. É só retirar-se do ambiente. Mas sem primar pela discrição. É levantar-se acintosamente e sair.