É difícil alguém se recuperar de um golpe assim. Os clássicos males de amor! São os de mais difícil superação. O abandono amoroso é mais doloroso do que a morte. Da morte não restam nem esperanças, nem possibilidades, nem probabilidades. A morte aniquila tanto a possibilidade quanto a probabilidade. E o espírito humano tende a reagir diante da certeza da impossibilidade. O mesmo não acontece com a improbabilidade. O que é somente improvável acalenta a esperança. Um resquício que seja. E, enquanto há vida, há possibilidade.
Foi com muita dificuldade que me recuperei. Ele esteve na minha vida desde sempre. Nas lembranças mais antigas, lá estava ele. Nas brincadeiras infantis, lá estava ele. Nos programas da adolescência, lá estava ele. Não me lembro de nenhum acontecimento de minha vida sem a presença dele. Morávamos em casas vizinhas, ele, um ano mais velho do que eu, da mesma idade de meu irmão. As famílias eram amigas, de modo que as crianças circulavam nas duas casas como se fossem uma única casa. Cinco criança em uma, quatro na outra. Festejávamos juntos o Natal, o Ano Novo, o Domingo da Páscoa, os aniversários. Assim, quando anunciamos o namoro, ninguém se surpreendeu. Aliás, nem anunciamos. A coisa foi acontecendo naturalmente, como se estivesse escrito na estrela – lugar comum, mas que soa até bonito e é até sugestivo.
Eu tinha treze anos e ele, catorze. Um dia, quando andávamos de bicicleta, a coisa clareou. Era um domingo pela manhã. Por algumas horas da manhã de domingo, nossa rua ficava praticamente sem movimento de carro, um verdadeiro paraíso para as crianças. Cada um em sua bicicleta, conversávamos e ríamos. A uma história engraçada dele, de tanto rir, desequilibrei-me, levando-o e a sua bicicleta para o chão comigo. Ele caiu ao meu lado e nossos corpos se tocaram. Somente. Algo clareou em nossas cabeças e nós entendemos o que sentíamos. A partir desse dia, passamos a procurar lugares em que pudéssemos conversar, momentos em que pudéssemos usufruir da felicidade de estarmos juntos.
Na primeira vez em que disse à minha mãe que queria ir ao cinema com ele, ela não fez nenhum comentário, simplesmente me deu o dinheiro da entrada. Era como se já esperasse por aquele momento. Era como se já estivesse escrito nas estrelas. E fomos crescendo juntos, embalados por aquela relação. E fizemos planos e nos preparamos financeiramente e emocionalmente para la grande finale.
A família dele transferiu-se para outro bairro, mas nada mudou entre nós. Ele passava todo o tempo livre lá em casa e mostrava-se cada vez mais apaixonado. Hoje, eu me pergunto se não era a minha paixão, que de tão grande acabava compensando a sua em movimento regressivo. Não sei. Quando paro a fim de rever essa fase de minha vida não encontro indícios dessa pretensa marcha a ré engatada e mantida. Também ninguém da minha família, nenhum amigo me advertiu de alguma coisa. Meu barco, pois, navegava em águas mansas, com certeza de que um pouco mais à frente haveria um porto seguro. Jamais pensara na possibilidade de encalhar em um porto aberto.
Marcamos a data do casamento, contratamos bufê e igreja, mandei fazer o vestido de noiva. Os convites foram distribuídos, os familiares – os meus e os deles – que moravam em outras cidades já chegavam. Era a véspera da grande finale. Não o veria naquela noite. Os amigos o haviam sequestrado para a despedida de solteiro. Até que achei bom, estava muito ansiosa. Para me acalmar, comecei a abrir os últimos presentes, com minha irmã mais nova. Ricos presentes: uma baixela e um faqueiro de prata; peças inoxidáveis da Tramontina; enfeites de casa de muito bom gosto; conjuntos para chá e café; belíssimos conjuntos de cama, mesa e banho... Deitei-me cedo, mas só consegui dormir depois da meia-noite, de tão ansiosa. Não sabia exatamente o que sentia. Mas isso é normal. Duvido sempre de noiva tranquila. Onde há tranqüilidade não há amor. Amor é ansiedade, é sobressalto, é sofrimento – disse minha avó paterna, que sempre fora meio filósofa e meio poetisa.
Ao ouvir de minha avó essa definição de amor, involuntariamente estremeci. Lá no íntimo, tive medo e pensei: Se o amor está escrito nas estrelas, também nas estrelas deve estar escrito o desamor.
A cabeleireira dava os últimos retoques no cabelo, e eu já me engalanara com meu belo vestido branco, cujo véu tomava a metade do quarto. Alguém bateu à porta e entregou-me um buquê de rosas vermelhas. Mal o tive entre as mãos, soltei-o. Um pressentimento. Havia um cartão. Que caiu aos meus pés. Eu estava hirta. Sem condições de apanhá-lo. Minha mãe curvou-se. Apanhou-o. Não podemos casar. Não a amo mais. Perdão. Não chorei. Não gritei. Não falei. Arriei devagar. E fiquei deitada, com o branco vestido esparramado pela cama e o véu tomando parte do assoalho.
Minha mãe fez todo mundo sair do quarto e sentou-se na cadeira de balanço conservada ali. Sentou-se e ficou calada. Perto do meio-dia, sem que eu manifestasse alguma reação, tirou-me a roupa e vestiu-me com um pijama confortável. Deixou-me sozinha e não permitiu que ninguém me perturbasse. No meio da tarde, fez-me tomar um caldo, mas nada disse, nada me perguntou. Somente à noite falou comigo. Fez uma pergunta trivial: Quer tomar banho? Ajudou-me a entrar no banheiro, desfez-me o penteado e me pôs embaixo do chuveiro. Lavou-me o cabelo e foi buscar um copo de leite.
Somente no dia seguinte consegui chorar. E chorei muito no colo de minha mãe. E falei. Falei tudo o que me vinha à mente. Alternava momentos de choro com momentos de desabafo, em que as palavras saíam aos borbotões, ora com algum sentido, ora sem nenhum nexo. Penso que chorei tudo o que tinha de chorar. Ou pelo menos o que precisava chorar naquele momento.
O que senti ao longo dos meses nunca tentei expressar. E não será agora que o farei. Fui, aos poucos, retomando minha vida, meu trabalho. Mas ele continuou a fazer parte de mim. Ainda está comigo. E não sei até quando esse fantasma vivo atrapalhará a minha vida. Não consegui, até agora, interessar-me por alguém. E não sei se o conseguirei um dia. Se tudo está escrito nas estrelas, não adianta insistir. Um dia, acontecerá. Ou não acontecerá. Contra o acontecer ou o não acontecer nada se pode. Tudo está escrito nas estrelas.