- Se não botarem o almoço agora, vou morrer de fome!
Ao lado do irmão, no alpendre da casa de praia, o Artur fez cara de preocupado. Não queria que o irmão morresse. Já lhe disseram que morrer é ir embora para nunca mais voltar. Ele não queria que o Alvinho fosse embora.
- Mãe, bota logo o almoço do Alvinho! Eu não quero que ele morra.
- Que história é essa do Álvaro morrer, Artur?
- Ele disse, mãe, que, se não botassem o almoço, ele ia morrer de fome.
- Artur, Artur, ele só quis dizer que estava com muita fome.
O menino era assim, entendia tudo ao pé da letra. Mas também ele só tinha 7 anos!
Sabiam que ultimamente ele vinha preocupando-se com a morte? O avô dele estava doente, e ele escutara mais de uma vez os adultos falarem no assunto. Aí chegou para a mãe e lançou uma pergunta – primeiro, a pergunta passara alguns dias na cabeça; depois, outros tantos na garganta; em seguida, ficara presa nos dentes; agora estava na ponta da língua, tinha de sair:
- Mãe, quem morre, morre para sempre?
- Claro, Artur!
- Mas, nesse tempo, ele só tinha sete anos!
- Isso mesmo! Exatamente porque não entendia o que era morrer é que ele fazia esse tipo de pergunta.
Já ouvira as pessoas conjugarem o verbo morrer muitas vezes. Ele até podia lembrar-se de algumas.
Certa vez, ouviu a mãe dizer, com voz triste, que sua roseira de estimação havia morrido. Ele correu para ver: os galhos da roseira estavam arriados; as folhas, sem brilho; as rosas, fechadas e descoloridas. Olhou para a mãe e constatou que ela entristecera. Resolveu desistir de perguntar alguma coisa.
Sozinho, falando com seu boné – é, estava sem camisa, por isso não podia conversar com seus botões –, tirou algumas conclusões sobre a morte: morrer é não conseguir ficar em pé; é perder o brilho e a cor; é fechar... já sei, os olhos.
Outra vez, ouviu o pai mandar a Livramento varrer a calçada, cobertinha de folhas mortas. Ele correu e chegou antes dela. Achou lindo o que viu – cobrindo a calçada, um grande tapete de folhas de várias tonalidades de amarelo, que, de vez em quando, amortecia o barulho de passos apressados.
- Livramento, que é que você vai fazer com esse monte de folhas mortas?
- Uma parte vou usar como adubo nos jarros. O resto vai pro lixo.
Escanchado no muro, o Artur sentiu-se feliz. Aquelas lindas folhas mortas serviriam para alguma coisa – elas ajudariam outras plantas a viver. Então, no duro, no duro, elas não morriam pra sempre.
Certa feita...
- Que é mesmo certa feita?
- Ah! sim, quer dizer uma vez, em certa ocasião. Pois então, certa feita, o Ivan, o outro irmão do Artur, foi brincar com a lanterna do pai deles e quebrou. O pai, furibundo – vocês já sabem o que é furibundo, não? Essa palavra já apareceu em uma de nossas historinhas, em Raimundo Jucundo. Não leram? Pois deviam ter lido, ela é muito engraçada –, pois o pai, furibundo, fechou a cara, ameaçou-o com um castigo...
- Já sei! Já sei! Furibundo é com muita raiva, furioso mesmo.
- Bravo, Daniel, é isso mesmo!
Como eu ia dizendo, o pai fechou a cara, ameaçou-o com um castigo e disse assim: Eu fico pra morrer com uma história dessas. Aí o Artur deu um pulo, caiu no colo do pai, abraçou-o e disse esta:
- Não, pai, não precisa morrer por causa da lanterna, não. Eu não quero que você morra.
Aí, acabou-se a raiva e todo mundo caiu na gargalhada.
- Artur, Artur – era a mãe, prendendo o riso, que o menino não gostava que rissem dele –, ele só quis dizer que ficava com muita raiva, com raiva em excesso.
É. Mas nesse tempo ele só tinha 8 anos.
Um dia, o Artur ouviu a mãe conversar com a avó dela – a bisavó do menino, já muito velhinha – sobre uma parenta que morrera. A mãe dele disse, com pena:
- A Letícia morreu e deixou uma filhinha!
E ele escutou bem escutadinho a bisa falar, respondendo à observação da mãe dele:
- Você não deve dizer A Letícia morreu e deixou uma filha. Deve, sim, dizer A Letícia morreu, mas deixou uma filha. A filhinha dela vai dar continuidade à existência da mãe. É claro que a gente sente saudades de quem morre, como sente saudade de quem viaja. Aliás, morrer é como fazer uma longa viagem. Todo mundo morre para dar oportunidade a outros seres, entendeu, minha filha. Por isso ninguém morre para sempre.
A mãe olhou para o Artur e não viu o Artur. Viu só um largo sorriso de vitória e de alegria, que ia de um canto a outro da boca.
Na verdade, o menino entendera direitinho quase tudo o que a bisa dissera. Bem que ele sabia que a gente não morre para sempre.
Mas o avô do Artur foi ficando mais doente, mais doente, até que um dia a mãe chegou para os meninos e disse que ele havia morrido. A primeira imagem que veio à cabeça do Artur foi a do belo tapete de folhas mortas, cobrindo a calçada. Depois, viu uma roseira murchando e outra roseira nascendo dos galhos secos. Por fim, teve a impressão de ver, como se fosse uma fotografia, o avô, o pai e eles próprios – os três netos do avô que havia morrido. E ouviu, num sussurro, a voz da bisa: “É claro que a gente sente saudades de quem morre, como sente saudade de quem viaja. Aliás, morrer é como fazer uma longa viagem. Todo mundo morre para dar oportunidade a outros seres, entendeu, minha filha. Por isso ninguém morre para sempre”.
E ele já estava com saudade do avô e de suas brincadeiras. Ia chorar um pouquinho porque estava com vontade. E a mãe dissera, uma vez, que a gente não deve engolir o choro, quando está com vontade de chorar.
- Então, ele já sabia o que significava engolir o choro?
- Já, a mãe dele lhe dissera.
Mãe, quem morre, morre para sempre?
Enviado por Vicência Jaguaribe, qua, 31/03/2010 - 17:18