Como todos citadinos de Insular, Y foi ensinado a escolher uma profissão que contribuísse para o Bem da Humanidade. Seu sonho era ser pintor, mas, não ser excessivamente diferente dos outros, resolveu ser cientista. E entregou-se completamente ao ofício, com a entrega dos candidatos a grandes homens, abdicando de mulher, filhos, amigos, lazer, e tantas outras coisas que supostamente se deve ter. O resultado o surpreendeu: além de ter contribuído decisivamente para descoberta de dezenas de vacinas de doenças que, durante séculos, haviam causado danos humanos e financeiros incalculáveis, tornou-se no inventor do change, uma técnica regeneração humana jamais vista (não precisava de poderes sobrenaturais de nem tecnologia avançada, bastava a vontade do paciente).

Mas isso não o fazia sentir-se superior ou desprezar seus semelhantes. Aliás, achava exageradas as homenagens, os agradecimentos que eram feitos diariamente na praça em que ficava a sua casa; sempre que pudesse, ia a janela saudá-los. E se deixou de fazê-lo —; não foi por desprezo, como defendiam as más-línguas que foram prontamente silenciadas —, foi porque não podia mais acenar com as duas mãos (uma devia suster-lhe o corpo), e porque seu sorriso tornara-se pouco expressivo, parecendo forçado. Se decidiu que passaria a comunicar-se com seus semelhantes por via de cartas, foi porque concluiu que, embora não pudesse respondê-los a todos, podia dialogar com cada citadino, saber o que cada um sentia, e livrar-se dos gestos patriarcais que fazia na janela.

Apesar destas preocupações que tanto roubavam-lhe tanta saúde, consolava era saber que inventara algo acessível a todos, sem excepções. Na entrada da sua casa ficava o manual dos manuais, o portal da felicidade. Tratava-se de uma tela gigante com os seguintes dizeres:

“1) Esconde-te dos outros, concentra-te, e diga qual é a parte do corpo que pretende mudar. 2) Não se esqueçam que a morte continua a existir. Esforcem-se por fazer o change a tempo e horas.”

Telas como estas estavam espalhadas por todos cantos da cidade, mas os citadinos preferiam a da casa do doutor Y, porque, segundo eles, aquela era a original; sentiam-se como se colhessem a informação da fonte.

Tudo continuaria assim se, por pura diversão, para livrar-se do tédio e solidão, Y não tivesse resolvido colocar-se o desafio de aperfeiçoar a sua invenção. É que a regeneração era apenas física, não envolvia nada que fosse espiritual. Manifestou sua intenção na tela da entrada da sua casa, substituindo a mensagem que ali estivera por quatrocentos e cinquenta anos seguidos. Na verdade, embora achassem que o doutor Y merecesse descanso e diversão, os citadinos esperavam que mais cedo ou mais tarde o génio trouxesse novidades. No entanto, nos dias seguintes, pouco pôde fazer pelo novo projecto. Era ensurdecedor o barulho causado pela música, dança, cinema, teatro e tantas outras formas que os citadinos encontravam para manifestar sua gratidão, admiração e veneração.

II
Vendo a excitação que sua informação causara, doutor Y previu que seriam muitas as cartas que receberia doravante. Esperava apenas que o complexo sistema de escadas rolantes — que partia do gigantesco portão até a um caixote do seu escritório — não falhasse; e que o guarda, parado no portão, assegurasse que cada citadino envia-se apenas uma carta por dia, conforma o regulamento. É que, contrariamente a forma como vinha procedendo, queria ler todas as cartas, uma por uma. Queria saber o que os seus semelhantes pensavam da possibilidade de experimentarem uma nova forma de existência.

Como era de se esperar, cinco em cada dez citadinos não diziam mais do que, mais uma vez, agradecê-lo pelo bem que havia feito pela humanidade, e, antecipadamente, agradecê-lo pelo bem que estava em vias de fazer. Cada uma destas cartas roubava-lhe menos de um minuto, pois lia apenas as primeiras frases, tendo a certeza de que não as subestimava porque não completavam uma lauda, desperdiçavam as duas laudas previstas.

Três cartas despertaram-lhe uma atenção especial. A primeira era de um assassino inveterado, que matara todo tipo de gente e de todas maneiras que sua fértil imaginação lhe ditou:

... A morte da minha mãe é a que mais me deprime. Não consigo livrar-me da imagem dela na forca que improvisei na sala: nua, com um fiozinho de sangue que, partindo do pescoço, descia entre seus seios.

É por isso, prezado doutor, que o incentivo, aliás suplico-te, que conclua o seu novo projecto. Há muito que clamo por uma hora, uma apenas, hora de sossego...

Perturbado, doutor Y correu para o computador, e redigiu as palavras que logo colocaria na tela gigante:

“Usem o change apenas para causas justas. Às vezes a morte é a solução.”

A mensagem assustou os citadinos. Nunca o doutor Y se expressara naqueles termos. Houve quem reflectisse sobre a vulnerabilidade dos citadinos em relação ao doutor (a vida da cidade dependia única e exclusivamente da vontade e caprichos do doutor. Até quando ele seria bonzinho? Ainda bem que tinha mais de 300 anos, devia ter visto tudo na vida, e não estaria interessado em viver eternamente. É claro que tudo isso foi pensado apenas em voz muitíssimo baixa. Mas não concordaram que o delete não influisse na sua esperança de vida, pois quase todos atribuíam as suas reincidentes doenças físicas e espirituais ao simples facto de não puderem deixar de lembrar o que não desejavam.

III
Apesar da clara impaciência dos citadinos, doutor Y decidiu que iria lançar o manual do delete depois de reler as duas cartas que faltavam.

“Caro doutor!

Como todos citadinos, eu sei do change desde que me conheço como pessoa. Mas utilizei-o ano passado apenas. Se durante toda vida eu não precisei de mudar o corpo para conseguir emprego e amigos, as dificuldades que tive para encontrar um companheiro não me deixaram alternativa. Depois de anos negando que a aparência condiciona todo resto, finalmente reconheci precisava mudar, sob pena de morrer sozinha e infeliz. Contra os meus princípios, mudei completamente o corpo, e, como sou muito criativa, tornei-me na mulher mais bonita e desejada da cidade. Pude então escolher, e não me conformar com o primeiro que me surgisse. No entanto, sou infeliz. Sinto que ele vê, deseja e ama um corpo que não existe. Eu ainda me sinto no antigo corpo. Por isso lhe peço que, o mais urgentemente possível, faça o delete chegar até nós.”

A terceira carta levou-lhe mais tempo, e leu-a com a mesma atenção que prestara as primeiras duas, apesar do barulho cada vez maior vindo de fora.

Saltou a primeira linha (tradicionalmente dedicada cumprimentos) e foi ao que lhe interessava.

Ei-la:

“Estou farto de sofrer, farto de esperar pela minha vez, farto de acreditar que eu e o mundo podemos melhorar, farto de tanta dor, farto de ser sempre o último, o pior, farto nunca ter o que quero, farto de me humilhar para conseguir o que comer, farto de me sentir insuportavelmente mal (no corpo e na alma), farto de não merecer o que preciso, farto de ver os outros no paraíso e eu neste inferno, farto de ser sempre subalterno, farto de apanhar sem poder dar o troco, farto de me sentir irreversivelmente incapaz, farto da minha pequenez, farto deste permanente estado terminal.

Mas não se preocupe comigo, doutor. Há muito que sei a razão da minha desgraça. Eu defino metas que não posso atingir. E não consigo desejar coisas fáceis de alcançar. Eu preciso do delete precisamente para apagar estes dois defeitos.
Sei que fui repetitivo e, talvez, excessivamente sentimental. É que eu escrevi sem pensar, apenas sentindo.”

****

A tela gigante ficou em branco, e todos manifestantes viraram-se para ela. Focaram largos minutos quietos, como se o próprio doutor Y os tivesse ordenado nesse sentido. Apenas uma velha senhora ousou falar, para o guarda.

— Meu jovem, alguma vez você já fez o change? — perguntou a anciã.

— Não — respondeu o guardo sem saber se devia o fazer.

— Vê-se. Você está muito confortável nesse corpo. Ele é mesmo seu. Por quê não fez. Não teve necessidade?

Vendo-o constrangido, a anciã rematou:

— Deve ser por causa do teu trabalho. Sim, senão como é que iríamos procurá-lo nos momentos de aperto, se estivesse a mudar constantemente. Espero que não faça esse tal delete. Que para mim não passa de uma lavagem cerebral.

— Espera ai, minha senhora. Lavagem cerebral é uma expressão muito forte. O delete apenas permitirá que as pessoas tenham total controle da sua memória. Isso, como a senhora deve saber, vai nos livrar de vários problemas, até mesmo de doenças.

— Seja como for, o que eu acho é que a vida vai perdendo o interesse. Em breve seremos todos um bando de hedonistas. Ainda bem que já estou velha.

IV
Por fim apareceu uma nova mensagem na tela gigante:

“Esconde-te dos outros, concentra-te, escolha o deseja esquecer, e diga delete.”

Ao invés da natural excitação de quem realiza um grande sonho, os citadinos ficaram quietos. Todos com os olhos na tela gigante, esforçando-se para ter o manual de cor.

— Só não concordo com uma coisa — voltou a falar a anciã.

— O quê? — perguntou o guarda.

— Aliás, acho-a desnecessária. Ninguém precisa se esconder para aplicar o delete.

“E qual vai ser a primeira coisa que a senhora vai esquecer? — perguntou o guarda.

— É sobre essa história de lavagem cerebral. Não vejo a necessidade de lutar para que as pessoas não sejam estúpidas quando todos sentem prazer em o ser.

Antes de se afastar disse:

— Esquecer lavagem cerebral.

A mulher que estava ao lado do guarda, sem fechar os olhos, disse:

— Esquecer completamente o Tomás.

Um rapaz, que havia sido mandado a farmácia pelo pai, e não queria ir, disse:

— Esquecer farmácia.

Chegado a casa, jurou que não o haviam mandado para a farmácia. O pai, para não enlouquecer, esqueceu-se do assunto e da própria doença.

V
Se a cidade vivia a mais absoluta felicidade, o guarda passava a vida pensando sobre a sua vida e sua profissão. “Como vou prender os malfeitores. Sim, porque antes eu podia identificar qualquer um, por mais changes que fizesse. Agora, investigar será uma tarefa absolutamente inútil. Para fugirem da culpa e da polícia, vão simplesmente esquecer as suas infracções.”

Quando concluiu que não encontraria qualquer solução, e que não queria fazer delete, o guarda fez o que só a ele estava reservado: tocar a campainha da casa do doutor Y.

O doutor vi-o pela videovigilância e questionou:

— O que se passa, guarda?

— Precisamos conversar.

— Sobre o quê?

— Sobre a vida.

A seguir o portão abriu-se, o guarda foi levado pelo sistema de escadas rolantes até ao escritório do doutor.

O guarda passou largos segundos paralisado. Surpreendia-lhe aquele local, e o doutor Y lhe parecia mais jovem do que devia.

— O senhor está condenado a ser o ser humano mais estimado pela humanidade. Sim, porque o senhor realizou os nossos maiores sonhos: vida fácil e eterna. — começou o guarda. — E o senhor deve divertir-se com a nossa estupidez, não é?

— Nada disso, meu jovem. Aliás, tu não passarias toda sua vida no portão da minha casa se pensasse que eu não estimo a humanidade. Mas o que o traz aqui? És a primeira visita que recebo em quatrocentos anos.

— Vim assassiná-lo — rematou o guarda.

— Ó jovem. Por mais forte que seja o motivo, o senhor não precisa me matar. Faça como os outros fazem. Esqueça-se de tudo — disse o doutor tentando tranquilizá-lo.

— Mas o problema é exactamente esse, doutor. Eu não quero me esquecer de nada. E sinto-me mal em saber que o senhor se ri da estupidez da humanidade — disse o guarda.

— Mas o senhor sabe que isso será inútil. Mesmo morto, os citadinos continuarão a me idolatrar. E depois o que fará? Vai me substituir?

— Quero apenas que entenda que não o invejo. Depois de matá-lo vou me esquecer de tudo, pois não suportaria o peso da morte nas minhas costas.

— Mas por que não se esquece de tudo agora? — perguntou o doutor.

— Porque só a tua morte será digna de esquecimento — disse o guarda.