A tal frente fria
- A frente fria, onde estará? Alguém pode dizer-me onde se meteu esta tal de frente fria que andava fazendo besteira lá pelo Sudeste?
A tal frente fria, que chegaria por aqui e por aqui estacionaria algum tempo, chegou – se é que chegou – meio debilitada. Pudera! Exagerou lá pelo Sul e pelo Sudeste, esteve fazendo besteira, e agora vem dar vexame aqui no Ceará. Pelo que se viu na televisão, ainda conseguiu ser olhada com respeito em Recife, em Aracaju e em Maceió. Mas, aqui em Fortaleza, por pouco não foi vaiada em plena Praça do Ferreira. Sim, como aconteceu com o sol há algumas décadas. Depois de uma semana sem brilhar, como sói fazer aqui em nossas plagas, mal botou o olho de fora, foi saudado com uma bela vaia. Aqui no Ceará é assim: botou muita banca, o pessoal cai em cima e desbanca.
De qualquer maneira, com frente fria respeitável ou não, conseguimos respirar um pouco melhor de ontem para hoje. Durante toda a noite, ou parte dela, choveu sem estardalhaço. Uma chuvinha educada, daquelas que molham a terra sem causar prejuízo. E, durante a manhã, de vez em quando, uma neblina fina justificava o céu nublado. Não sei se deu para animar os agricultores, mas que deu para aplacar o calor, ah! isso deu. Também, diante do espetáculo lastimável que se viu pela televisão nesses últimos dias, eu já estava pedindo a Deus que essa frente fria não chegasse, ou chegasse já desgastada. Pelo jeito, fui atendida.
É certo que moramos em uma cidade plana, sem morros ou encostas que possam provocar uma tragédia como a que ocorreu no Rio de Janeiro. Nossos males são de outro tipo. Mas, mesmo assim, quando o inverno é bom, a falta de estrutura básica da cidade – um bom serviço de esgotos, galerias por onde a água possa escoar – e a imprevidência das autoridades se combinam para que os bairros mais pobres sejam castigados. Quando falo em imprevidência, refiro-me ao descaso com a limpeza dos canais que cortam a cidade, e das bocas de lobo, que, obstruídos pela sujeira de proveniências várias, acabam impedindo o escoamento da água da chuva e provocando alagamento. Nesse desserviço à sociedade, a ajuda da população não pode ser esquecida – o povo não coopera com a conservação do seu próprio espaço urbano. Atira lixo no meio da rua, joga entulhos e detritos de toda ordem dentro dos canais, abusa de material não degradável ou de difícil degradação, e faz outras coisitas mais indignas de uma população que se diz civilizada.
O Ceará sobrevive, quase sempre, aos extremos – seca ou enchente. Dificilmente temos um período de chuva ou um inverno, como chamamos por aqui, regular. Ou chove demais, quando ocorre a destruição da plantação – dando-se o que chamamos de seca verde – ou chove de menos, ou não chove de jeito nenhum, quando ocorre a seca propriamente dita, que mata de fome e de sede pessoas e animais. Mas o Brasil inteiro conhece esse fenômeno que atormente o nordestino, tão antigo e tão mal enfrentado pelas autoridades, que, na seca de 1877, D. Pedro II já se aproveitou dele para lançar ao vento o que talvez tenha sido sua grande frase de efeito, com a promessa de que venderia até a última jóia de sua coroa, mas nenhum nordestino morreria de fome. É claro que ele não vendeu nenhuma jóia da coroa, e os nordestinos continuam ainda hoje a morrer de fome.
E quem não se lembra ou não ouviu falar da quase tragédia provocada pelo arrombamento de uma das paredes do açude Orós, em 1960? Nesse ano, o grande açude, que nem havia sido terminado, ficou nos limites de sua capacidade, e o arrombamento de uma de suas paredes inundou algumas cidades do Vale do Rio Jaguaribe. Havia o prognóstico pessimista do arrombamento total do açude, que provocaria a destruição de toda a região, da cidade de Orós para baixo. As cidades foram evacuadas, com as populações refugiando-se nos sítios mais altos ou viajando para a capital. E, na noite do dia 25 de março, parte da parede do grande reservatório foi levada pela força das águas.
Estamos sempre de sobreaviso, quando se aproxima a quadra chuvosa – que chamamos de inverno. O agricultor aguarda o dia de São José, 19 de março, para deixar morrer a última esperança de chuva. Lembro-me do marido de uma tia, proprietário de uma pequena fazenda de gado, que, quando entrava o mês de janeiro, ficava de pescoço duro de tanto olhar para o céu em busca de nuvens. E fazia pena a sua angústia, quando se confirmava que o ano seria de seca.
Sabemos que a seca é uma catástrofe inominável, mas a enchente é mais perversa, traz consequências mais drásticas. O elemento água é incontrolável. Eu, da minha parte, tenho de água um pavor que chego a achar irracional. Quando vejo na televisão pessoas com as casas cheias de água, pessoas refugiadas nos tetos das construções para tentar escapar da força das enchentes, dou graças a Deus por viver em uma região de pouca chuva.
Por isso é que fiquei feliz quando desconfiei de que essa famosa frente fria ou não vai aparecer por aqui, ou se já apareceu veio já sem moral. Só a expressão frente fria já me dá arrepios – de frio e de medo. Bem mais tranquilos eram os tempos em que, quando chovia no Nordeste, dizíamos que estávamos no inverno. Não sei não, mas acho que essa história de frente fria veio só piorar as coisas.