José era um pescador que vivia com sua família num pequeno vilarejo praiano. Era alegre, tranquilo e muito querido por seus amigos. Sempre tinha uma boa desculpa para dar uma festa onde reunia todo o povoado para comer, beber, dançar e cantar.
José era um grande contador de histórias. Contava casos engraçados e seus amigos adoravam ouvi-lo. Todos se divertiam.
Naquele ano, a temperatura excepcionalmente alta no verão, de vez em quando, ocasionava pequenas tempestades nos finais de tarde. Por essa razão, os pescadores voltavam para suas casas um pouco mais cedo.
Mas José sempre ficava até mais tarde quando o tempo estava bom.
Numa dessas vezes, avistou um barco estranho que se aproximava da praia e quando já se punha a caminho de casa ouviu uma voz que parecia vir do mar.
Ao voltar-se para ver quem falava, José deparou-se com um velho corpulento, cabelos brancos e longa barba, vestido com trajes majestosos.
— O que você faz ai? — perguntou-lhe o desconhecido.
— Terminei meu trabalho e estou voltando para casa.
— Trabalho? Chama isso de trabalho?
— Sim, senhor.
— Pois eu lhe digo que isso não é trabalho pra você!
— Por que não, senhor?
— Você precisa crescer! Tornar-se um grande homem; um homem rico e poderoso como eu.
— Mas, pra quê, senhor?
— Para liderar seu povo.
— Com que finalidade?
— Para prepará-lo para lutar contra seus inimigos.
— Eu não tenho inimigos, senhor!
— Mas os terá quando for rico e poderoso, portanto você deve se preparar.
— Por que eu devo ser rico e poderoso, senhor?
— Homem tolo! Olhe só para você! Como vai ser alguém na vida? O que vai ser de sua pobre alma quando ninguém mais se lembrar de você? Olhe para mim! Terei meu nome gravado para sempre na história como aquele que tem todo o poder; aquele que escolhe quem vai tornar rico e poderoso.
José admirou-o com curiosidade.
— E como vai me tornar rico e poderoso?
— Eu lhe direi o que fazer! De agora em diante eu serei o seu Senhor e vou torná-lo o homem mais poderoso da sua nação.
E, assim, o velho começou dar suas instruções a José:
— Todo seu povo deve obedecer cegamente as minhas ordens.
— Os homens devem ser reunidos em um exército para invadir outras nações, matar seus homens e lhes tomar seus bens.
José interrompeu-o dizendo que sua mulher não aprovaria tal coisa.
— Estabeleça as leis. Os homens devem dominar as mulheres e colocá-las a serviço deles.
O velho então prosseguiu com suas exigências:
— Erga um grande templo em meu nome que seja ornado com ouro e pedras preciosas para que todos conheçam o meu poder. Reúna seu povo ali a fim de que eles ofereçam parte de seus bens para minha honra e glória.
E finalizou:
— Agora eu vou embora. Quando eu voltar, você me trará um terço de tudo que conseguir e eu lhe darei a vitória. Torná-lo-ei cada vez mais rico e poderoso.
O velho dirigiu-se para seu barco e José voltou para casa.
Naquela noite não conseguiu dormir. Pensava em como diria aos outros o que o Senhor lhe havia mandado fazer para que se tornasse um grande homem.
No dia seguinte, José reuniu sua esposa, seus filhos e seus amigos e contou—lhes a experiência que tivera no dia anterior.
Depois de ouvir em silêncio a inusitada história de José, um homem que era conhecido por Curandeiro, perguntou—lhe:
— No que isso vai melhorar sua vida?
— O Senhor disse que me dará a vitória sobre os nossos inimigos.
— Quem são os nossos inimigos?
— Ele disse, falando como um verdadeiro profeta, que eles vão aparecer quando eu me tornar rico e poderoso.
E Curandeiro ainda perguntou:
— E de que adianta você ser rico e atrair inimigos?
— Por isso ele me mandou derrotá-los. Para que eu tenha poder sobre os inimigos e possa ser grande como ele.
De repente, ouviu—se uma voz que parecia vir detrás da montanha que disse:
— José, devo lhe falar. Venha até mim para que os outros não temam.
Atordoados, alguns correram para se esconderem do que imaginavam ser uma coisa de outro mundo. Outros, estupefatos, ficaram paralisados nos seus lugares enquanto José se dirigia para a montanha.
Ele havia dado apenas alguns passos quando Curandeiro tomou seu braço e lhe disse:
— Não dê ouvidos a esse senhor. Se o fizer nunca mais teremos paz.
Por alguns instantes, José hesitou, mas, de repente, o céu escureceu e a tempestade de verão começou a se formar. Na praia, ondas furiosas levantavam-se contra os rochedos. Ele então voltou-se para o curandeiro e disse:
— Veja! É um sinal da força da presença do Senhor.
— Isso é um sinal de tempestade. E mostra que devemos nos proteger.
Os homens que tinham permanecido ali, também se dispersaram aterrorizados com os estrondos dos trovões e os ameaçadores clarões que os precediam.
O curandeiro não pôde fazer nada quando, vendo uma forte luz que aparecia no topo da montanha, viu José seguir em frente como que fascinado pelo fenômeno.
Ao chegar ao cume, José deparou-se com uma luz tão forte que lhe cegou por alguns instantes. Então, a voz perguntou—lhe:
— O que lhe disse aquele pobre diabo?
— Disse que não devo cumprir suas ordens.
— Eis então aquele que você deve afastar do seu caminho. É astuto e egoísta, Fará de tudo para lhe impedir de se tornar seu líder. Tudo que ele lhe disser será para induzi-lo a fracassar. Agora, ouça bem: Jamais dê ouvidos a quem quer que seja. Apenas dê-lhes ordens as quais eles devem cumprir obstinadamente para o sucesso do nosso plano.
— Mas os homens estão inquietos, senhor. Temem por suas vidas.
— Descreva-lhes quão vil é o inimigo. Isso despertará neles a ira.
— Mas e depois? Como controlar a ira de tantos soldados?
— Diga-lhes que devem purificar-se de seus males. Ordene-lhes que façam jejum por um longo período depois de cada batalha. Isso os tornará mais fracos, portanto, mais dóceis e você terá mais facilidade em persuadi-los e os dominar.
Subitamente a luz se apagou e a visão de José escureceu. Ele esfregou os olhos e percebeu que o vento soprava agora em sua direção acompanhado de um forte barulho que foi aos poucos se distanciando. Tudo ficou em silêncio.
De volta a aldeia, José encontrou uma multidão que se agitava em frente sua casa. Quando perguntou o que estava acontecendo, um dos homens que não parecia menos perturbado que os outros se precipitou a falar:
— Todos estamos com medo da guerra! Tememos por nossas mulheres e nossos filhos. O Curandeiro disse-nos para que não pensemos em guerra; não falemos em guerra e ela não acontecerá, mas não se fala em outra coisa no vilarejo.
José então começou o seu discurso sobre as atrocidades que praticava o inimigo e, quando viu a ira aflorar nos olhos dos seus homens, assegurou-lhes:
— Só há uma maneira de vencer o inimigo e é lutando contra ele! Vamos fortalecer nosso exército; proteger nossas famílias e cumprir nossa missão!
— Mas, como faremos isso?
E assim, como um verdadeiro general, José começou a organizar seu exército. As operações consistiam basicamente em invadir outros povoados, matar os rebeldes, ou seja, todo aquele que se recusasse a servir ao plano do Senhor de José e lhes roubar tudo o que possuíam. Mas a ordem era para agirem com bondade, assim, as esposas e os filhos dos mortos eram levados para o vilarejo para servirem como escravos e não seriam maltratados se se resignassem ao trabalho. Isso os faria se sentirem úteis, privilegiados e, assim participarem, de uma forma ou de outra, do crescimento do vilarejo. Afinal, deveriam ser gratos por terem poupadas suas vidas.
De posse dos recursos suficientes, José ordenou que começassem a construção do templo em honra do seu Senhor que lhe daria ainda mais vitórias.
Certa noite, José foi acordado com batidas na sua porta. Era um de seus soldados. O homem estava ofegante e sua expressão mostrava desespero.
— Diga, homem! O que aconteceu? — perguntou José.
— Os homens estão descontrolados, José. Estão em luta lá na praça. Mas, agora, não é com o inimigo não! É um contra o outro. Amigo contra amigo e irmão contra irmão.
José pediu que o homem contasse como tudo começara.
— No começo, Jeremias e Inácio começaram a discutir. Tudo porque Jeremias disse que seria o novo lider do exército e ficaria muito mais rico que você, José. Então Inácio retrucou dizendo que ele só fez isso porque tinha roubado mais coisas que os outros e ficado com a maior parte em vez de levar em oferenda ao Senhor, agora podia convencer as pessoas a Elegê-lo o líder porque lhes prometia mais riquezas. Então, Curandeiro, com aquela tranquilidade de sempre, interveio dizendo que tudo que os estava movendo era o medo; que tudo que tinham aprendido com a guerra era ter medo, e agora estão repletos de tudo o que o medo desperta nos homens: a raiva, a cobiça, a inveja... Ai a coisa piorou! Jeremias disse que Curandeiro não passava de um pobre diabo; um covarde que nem sequer havia ido para a guerra e estava sempre se metendo onde não é chamado. Os outros entraram na discussão e... Só você indo lá pra ver.
José disse para o homem ir embora que ele ia em seguida. Fechou a porta e começou a andar de um lado para outro pensando no que fazer para retomar o controle da situação.
— Bando de tolos... — lamentou em pensamento.
— Medrosos! — exclamou como heureca.
José percebeu que aquele incidente poderia contribuir para engrandecer ainda mais seu plano e saiu em direção à praça.
Os homens que o avistavam iam abrindo caminho até que José se aproximou do Curandeiro.
Então, colocando-se ao lado dele, disse:
— Olhem para este pobre diabo! — e apontou para o curandeiro. — Sabem o que ele está fazendo? Ele está enfeitiçando todos vocês! . Ele quer tentá-los para que desviem da missão que o Senhor lhes deu. Não veem o que ele está causando a vocês? Não percebem que tudo o que ele diz é com o propósito de colocá-los contra o meu Senhor, desobedecendo suas ordens? Mas o Senhor diz que não devemos dar ouvidos àqueles que são contra seus planos.
E se ele é contra o meu Senhor, também é contra mim. Portanto, aquele que quer ficar livre da tentação, jamais dará ouvido a este verdadeiro demônio que durante todo o tempo se escondeu atrás de suas benfeitorias; de suas mensagens de amor e cura.
Atônito, Curandeiro levantou-se e quando ia começar a falar um burburinho levantou-se da multidão e entre as frases incompressíveis, podia-se ouvir claramente as afrontas, os insultos saídos dos mais profundos sentimentos de ódio contra o curandeiro. Sentimentos tão suficientemente poderosos que os faziam esquecer uma vida de amizade. E, por se sentirem enganados, tinham sua ira redobrada. E ainda movidos pelo medo de se perderem em suas próprias contradições, precipitaram-se em direção ao curandeiro que não resistindo aos golpes de pau, pontapés, socos de todos os lados, acabou por morrer em poucos minutos.
Ana, esposa do curandeiro, não tardou a chegar ao local, avisada por algumas crianças que também haviam presenciado o massacre do homem.
Ao aproximar-se do corpo do curandeiro, Ana ajoelhou-se e abraçou o marido morto, desatando em lágrimas. Depois de alguns minutos, ainda soluçando, foi se levantando devagar até fixar seu olhar em José.
— Por quê? — perguntou ela de uma voz baixa, sufocada.
— Ele provocou meus homens. Quis intimidá-los amedrontando-os. Gritava injúrias contra o meu Senhor. Não pude impedi-los.
A mulher agora olhava para José incrédula, horrorizada.
— Não está falando do meu marido! — depois, voltando-se para a multidão, perguntou:
— Vocês jamais se perguntaram quem é o Senhor de José? Por que ele manda matar e roubar para engrandecer apenas um homem?
Mas José interrompeu-a:
— Esses homens não se deixarão enganar! Eles sabem que o meu Senhor me alertou contra aqueles que são contra seu plano. Sua tentativa restará vã.
Um dos homens disse em voz alta: "Mulher do diabo! Vai querer nos enganar também?" A multidão se agitou e começou a lançar injúrias também contra ela.
Por um breve momento, José lembrou-se de como havia amado Ana e seu marido, mas antes que o olhar franco e inocente da mulher pudesse comovê-lo ele disse:
— Deixem-na ir!
Sem forças para protestar, Ana voltou para casa.
Depois que dois homens saíram carregando o corpo do curandeiro para enterrá-lo, o pessoal que ficou começou a comentar o incidente, cada qual expunha seu ponto de vista, sempre querendo mostrar que sabia mais que o outro e por fim, ninguém parecia mais se lembrar porque a briga havia começado.
Guerra após guerra, José ficava cada vez mais rico e poderoso assim como o seu Senhor.
Por outro lado, na mesma proporção, a desordem, a corrupção e a criminalidade vieram instalar-se entre os homens do povo. A pesca na região havia sido abandonada e a lavoura dos povos vizinhos, destruída. Sobrevieram a fome e as doenças. Não havia mais nada que toda riqueza do mundo pudesse comprar ali. Não havia remédios para os doentes. Nada que aliviasse a dor dos soldados que tinham sido feridos na guerra. Nenhum consolo para as mães que haviam perdido seus filhos.
Nesse vale de lágrimas, alguém ousou questionar José; queria uma resposta que explicasse o que eles haviam feito de errado; por que depois de terem vencido o inimigo encontravam-se naquele estado de miséria e tristeza.
José respondeu à questão como um verdadeiro sábio:
— Somente aquele que resistiu à tentação de desviar do seu caminho merece receber as riquezas do meu Senhor, então, se não as recebeu é porque ainda está sob o jugo da tentação.
E assim, eles viveram infelizes para sempre atribuindo seu infortúnio à ação do espírito maligno do curandeiro que errava pelas redondezas tentando desviá-los do caminho que o Senhor lhes traçara.

FIM