E flutuou no ar como se fosse um pássaro.
(Chico Buarque de Holanda. Construção.)

Subiu ao último andar do prédio, onde havia uma ampla plataforma protegida por uma grade. Dela se descortinava, em todas as direções, uma bela vista da cidade. Mas era principalmente a parte da plataforma que dava para o mar que tirava o fôlego. Ali, olhando a imensidão das águas, todo mundo necessitava de um momento de recolhimento. Até as crianças se deixavam envolver pelo êxtase e aquietavam-se por alguns segundos.
Ele já fora ali com a mulher e os filhos, pequenos. Já fora outras vezes, acompanhado e desacompanhado. Agora voltava sozinho, para pensar nos problemas. Analisar os últimos acontecimentos de sua vida.
No elevador encontrara uma amiga da mulher, dos tempos do colégio, que há muito não via e que indagara pela Dolores. A Dolores está bem, mentiu. E, sem que ela perguntasse, dissera que estava indo ao escritório do advogado resolver uns problemas. Ela descera no vigésimo andar, e ele seguira em frente. Em frente? Não. Subira. Por que pensara em frente? Porque, na verdade, a terra chã é que é o habitat natural do homem.
Sobre o que precisava refletir? Eram tantos os problemas que ele não sabia como se livrar deles. Entrelaçavam-se, formando um único corpo disposto a arrastá-lo para o abismo. Sentia-se como se estivesse sendo enredado pelos tentáculos de um polvo ou pelo abraço de uma sucuri. Com um ou com outro estava perdido.
Finalmente, a porta do elevador abriu-se e ele experimentou com prazer a brisa que soprava do mar, amenizando o calor que há meses castigava a cidade. E reconheceu-se confortado com a beleza que se derramava lá embaixo.
Que acontecera com ele nos últimos tempos, para deixá-lo naquele estado de desespero? Era a pergunta que se fazia e que só ele mesmo poderia responder. E, dentro da cabeça, escutou a própria voz como se estivesse representando um monólogo em cima de um palco.
Sabia que tudo começara na festa dos vinte e cinco anos – Bodas de que mesmo? Sei lá. Também não importa. – do casamento de um amigo. Fora só. A Dolores estava acamada com a virose do momento. E a conhecera. Muito jovem ainda. Com um copo de uísque na mão e envolvida por aquele ar de mistério que deixa qualquer homem louco. Uma amiga do sul, apresentou-me a anfitriã, e não acrescentou mais nada. Dançamos a noite toda e marcamos um encontro para o dia seguinte. Disse chamar-se Lucíola. Àquele nome, reagi com um entusiasmo disfarçado. Parecia ter entrado no mundo paralelo da literatura, parecia haver sido transportado para o território da fantasia. Lucíola – cochichou-me meu pedaço romântico – é o título da obra de José de Alencar que conta o envolvimento amoroso do jovem Paulo, originário do interior, com Lúcia, uma prostituta de luxo da capital. De repente eu deixara de ser eu. Vestira a pele de Paulo.
Acontece que a minha Lucíola não era nem de longe parecida com a Lúcia, que, apesar de prostituta, conservava virgens os sentimentos. A minha Lucíola era uma máquina de consumir dinheiro, mas minha paixão por ela não me deixou ver o perigo que morava ali. Não abandonei minha família e fui morar com ela, para salvar as aparências. Mas minha relação com minha mulher e filhos esfacelou-se. Um certo dia, quando eu não tinha mais nada que pudesse levar, ela anoiteceu e não amanheceu a meu lado. A essas alturas, já havia perdido quase todo o patrimônio que levara a vida inteira para amealhar. Os credores já batiam à minha porta. Ontem, minha mulher saiu de casa com os nossos filhos.
Quando ouviu a si mesmo pronunciar a última palavra, a visão do mar ao pôr-do-sol embriagou-o. Aproximou-se da grade de proteção e fixou o olhar na mancha de sangue em que mergulhava o sol, antes de ser tragado pelas águas.
Num impulso repentino, escalou a grade de proteção. Sentiu que não merecia ser brindado com a aquarela que se descortinava a sua frente. Quando as outras pessoas que se espalhavam pelos quatro cantos da plataforma perceberam o que acontecia, embevecido e dominado pelo embriaguez das alturas, o pássaro já se havia atirado, de asas abertas. Um pássaro que se lançara em voo rasante, mas que, na última hora, perdera as forças para ascender, e pousara violentamente no asfalto. Por muito pouco não aterrissa na coberta de um carro de cujo rádio se ouviam versos de Chico Buarque: E tropeçou no céu como se fosse um bêbado / E flutuou no ar como se fosse um pássaro / E se acabou no chão feito um pacote flácido / Agonizou no meio do passeio público / Morreu na contramão atrapalhando o tráfego.