Eis a cena: sábado de manhã, Rodolfo, pedreiro de firma e aspirante-a-escritor, está deitado no velho sofá, cervical a pressionar a almofada rígida, tevê ligada num daqueles programas que ninguém vê. O caderno ele escora na perna direita dobrada sobre a outra, e aguarda ansioso a tinta negra da esferográfica, que já está na secura natural da horizontalidade, manifestar alguma opinião. Nada.
Rodolfo até que escreve direitinho, sabe? Tem lá seus alfarrábios, que mostra principalmente a uma tia, professora municipal. Ela diz que gosta, incentiva-o a continuar: “Veja dessa forma: no mínimo, meu filho, você está criando algo, pondo a cuca pra funcionar, isso é bom...”
Mas com a rotina pesada que leva, fica complicado desenvolver-se noutra área. Aquela maldita pauta, a falta de inspiração e ainda o infeliz do sono, “Como é que você quer escrever, camarada?”, raciocina no meio da tontura. Também, passou a madrugada tentando inventar... “Que que eu posso fazer? Trabalhando a semana toda, é só sexta à noite e sábado mesmo.”
Nisso a mulher, Aurora, chega da quitanda, parece estar reclamando da vida. Assim que pôde discernir o que ela profere, o artista vê que a coisa é com a pessoa dele:
- Vem cá me ajudar, Rodolfo, pombas, estou aqui cheia de sacola pendurada e você nem pra dar uma mãozinha! Sou tua escrava não, filhinho – diz com ironia.
Rodolfo dá um pulo, soltando no ar o caderno e a caneta:
- Calma, amor, estou indo, não sabia que traria peso, você disse que ia sair só pra comprar banana pras crianças.
- É, mas resolvi trazer uns negócios, vou ver se faço um cozido amanhã - explicou a dona, mais calma porque o marido tomava de suas mãos o carregamento e, para não ficar mal no retrato, arrumava todos os itens sobre a mesa.
“‘Amanhã’ ela disse? domingo prometendo frio, até que vai bem um prato quente, abarrotado de legume e carne”, diz consigo. Mal completa o pensamento, lâmpadas acendem, já outro lhe invade a cabeça: “Tá aí uma ideia! vou escrever sobre o tal cozido.”
E põe o título no topo da página em branco:
"O cozido"
No que a esposa, insensível à veia artística do cônjuge, mal ele assenta o último “o” da palavra, grita da cozinha:
- Aaaai, Dolfinho, socooorro!
De novo lá vão caderno e caneta para o alto.
- Que foi, Aurora, ai meu Deus, que foi?
- Uma aranha enorme, Rodolfo!
- Cadê, cadê? – e pôs-se a esquadrinhar os cantos em busca da desgramada.
- Está ali, debaixo do fogão – auxilia a senhora, nervosíssima.
Rodolfo declina a orelha ao piso e, nada vendo, pega a vassoura para cutucar debaixo do aparato.
- A bicha deve ter entrado no forno – concluiu.
- Ah Rodolfo, tira ela daí! – clamava Aurora se espremendo toda de aflição.
- A gente faz o seguinte, pronto! acende aí o forno, vamos tostar a miserável.
- Ai, acende você, e se ela pula em mim?
O homem acende e já a artrópode, gordíssima, evade-se da chama. Mas foi chamuscada. Começa entretanto a sair de dentro dela uma série de minúsculas aranhas. Ela estava grávida, são seus filhotes que nessa hora correm em todas as direções. Aurora grita e salta na cadeira, da cadeira sobe ao mármore da pia, sem parar de gritar um segundo. Muitos exemplares de bebês-aranha, muitos, não dá nem para contar. A mãe começa a desesperar-se, é frágil em relação ao fogo, e encolhe-se sentindo a morte próxima. De fato não consegue evitar a estrondosa chinelada do pedreiro. Estalo e gosma, pernas soltas:
- Ahh que nojo! - contorce-se a mulher, quase tendo uma síncope.
Rodolfo sai pulando engraçado e pisa todos os filhotes possíveis, uns conseguem fugir para o quintal. Quando ele pega a pá de lixo para recolher os restos da praga, a companheira intervém:
- Não senhor, vai sujar minha pá, ahh que coisa horrorosa!
Não encontrando nada para limpar a repugnância, Rodolfo arranca a folha do caderno em que havia posto o título sobre o cozido e coleta a finada e o grosso caldo em torno. Depois, com papel-toalha, recolhe a cria.
Tudo resolvido, depois de lavar as mãos, ele retoma seu propósito:
- Vai precisar de mim agora, Aurorinha?
- Não, meu amor, pode ver sua tevê – responde a mulher ainda ajeitando o coração no peito.
Então ele se acomoda novamente no sofá, todo sério como se cumprisse um rito mágico, pega o caderno e, agora a lápis - porque a caneta sumiu na confusão -, imprime:
"A aranha"
qua, 12/05/2010 - 17:22
Lindo!