"Caro Emanuel,

Embora nossa caminhada como amigos tenha perdido a força com o tempo, quero de coração parabenizá-lo por mais um ano de vida.

Estive pensando com um mais apurado juízo, deixando de lado as falhas cometidas por mim (ou por você, não importa) e o endurecimento de meu espírito no que tange a sua pessoa. Definitivamente, odiaria que você celebrasse seu aniversário tendo inimizade contra mim.

Emanuel, nosso contato sempre se balizou em cordialidade, peito aberto, da minha parte, acredite, e da sua, tenho certeza. Mas as coisas desandaram. Você sabe, tenho um chamado para ser um cara correto, e tento a todo custo limpar-me de pensamentos malévolos. Mas sou falho, e talvez tenha me deixado levar mais pelo lado humano do que pelo espiritual. Quiçá também tenha confundido sua maneira de ser, ou não me tenha sentido disposto a abarcar suas idiossincrasias; nem sei, a questão é: faltou em nós, como sujeitos-homens, um pouco mais de compreensão mútua.

Mas bem sei, você é um sujeito bacana (pude enxergar como você é interiormente algumas vezes). E conheço-me também: não sou mau sujeito; ao menos tenho vontade de acertar, de ajudar, de manter certa dignidade. Há momentos, entretanto, que a coisa complica e nos perdemos. É a vida.

Não estou aqui propondo que nos acheguemos totalmente de novo, mas gostaria de acabar com esse mau sentimento sem resolução. Portanto, de minha parte, peço-lhe perdão. Espero sinceramente que nossa alma (na verdade a única coisa verdadeira e de valor nessa vida louca) reaja à desarmonia. Se pensarmos bem, discórdias, antipatias, isso é tudo bobagem, pessoas como nós ficar ruminando baixos níveis, negatividades, é pura perda de tempo.

Admiro você, amigo, apesar de tudo, como pessoa e como profissional. E peço-lhe somente isto: vivamos em paz, com nosso espírito livre de rancores.

Abraço"

Após amassar o papel e lançá-lo à lixeira da cozinha, Emanuel partiu à rua, disparando numerosos beijos estalados nos próprios antebraços. Foi comprar uma torta e uns refrigerantes no supermercado, aliviado por ter feito as pazes consigo mesmo.

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Fabbio Cortez, escritor e poeta