Marcelo me deu carinho uma vez. Aos meus 20 anos de idade. Ele, 25. Um jornalista fugido de Brasília, onde arranjou inimizade com algum figurão. Acossou-se numa pensão pulguenta na República. Caixas pra todo lado, pó, muito marrom. Só havia uma janela. Uma janela grande, dividida em quadrados médios, que para mim eram milhões de quadrados. Janela que, pra mim, era um vitral. Sinto agora vontade de contar quantos vidros eram. Mas eu sei onde ele está, nem quem está vivendo no quarto empoeirado. Exatamente como tem que ser. Exatamente como a gente sabe que quer que seja, ainda que exista, em cada mulher, uma menina chorona que grite e esperneie por um ‘pra sempre’ medíocre.
Quarto imundo. Banheiro minúsculo com azulejos lascados. Voltava tarde da noite, sempre voltava tarde da noite. Um colchão velho jogado em frente à janela. Tinha o colchão, uma mala e livros. E me tinha, quando de comum acordo. Tinha olhos azul claros. Barbudo, alto, branco demais, demais. Pobre como o diabo. Pobre e errante. Talentoso, doce e pobre, como devem ser os bons amantes.
Conheci quando me entrevistou. A hora finalmente tinha chegado: Eu fazia um musical. Estava sendo mais ou menos bem paga e tinha uma maquiadora e uma figurinista, o que pode ser chamado de luxo em tempos de crise como esses (a menos que você seja uma ex-BBB). Ele deveria me entrevistar mas ficou olhando com aquela cara de jornalista experiente sendo obrigado a falar com um estrelinha deslumbrada porque a fome obrigava. Me disse depois que tinha me achado sem graça. E eu disse que ele era um grosso. Tinha dado sorte comigo, mas ainda ia ter que se mudar muito se continuasse detestável e artificialmente blasé.
E eu era virgem naquela noite. Ele tentara uma outra vez e eu não deixei. Naquela noite, cansei. Que viesse. Resolvi ser honesta comigo mesma. Era virgem. Não o amava. Queria dar. E dar pra ele. Não amava homem nenhum. Finalmente disputavam pra trabalhar comigo. Não ia amar ninguém nos próximos anos. E uma mulher sabe quando as coisas são assim. Ele me fazia rir. Ele era sedutoramente honesto sobre ele, sobre mim e sobre o que sabia da vida. E eu era uma mulher cansada de fingir. E eu queria. Eu queria ele. Tinha algo que me fazia gostar dele só por ele andar por aí, e que me faria gostar dele mesmo se ele fosse o canalha dos canalhas. Ele era um amigo. Mas não um amigo daqueles que o dinossauro Barney canta nas suas músicas. Era um cara de quem eu era amiga mesmo. E ele era interessante. Um mulher chega, um dia, a um ponto em que tem que considerar as coisas como são, depois de todas os contos de fadas e das regras sociais que lhe encheram a paciência a vida toda. Na maioria relevante das vezes, não interessa ser bonito, rico, inteligente, culto, fiel nem qualquer maravilha normalmente exigida. Se ele for interessante, ele leva. O que é ser interessante é um mistério, mas tem cara que é, e pronto. E é desses que você tem que ir atrás, se quiser viver. São esses que a gente procura inconscientemente o tempo todo. Só que a gente quer se apaixonar. Querer se apaixonar é um crime. Macula o amor. E contra macular o amor só existe honestidade. Ou não. De tanto macular o amor, a gente sofre muito. Aí, quem sabe, pára de bancar a retardada.
Eu quis aquele cara. E naquele momento, eu só queria aquele cara, e isso me consumia. Ele era interessante, e, de bônus, intrigante. Ombros largos, braços fortes. Deveria ser bom ficar entre eles. Ter ele sobre mim. Era peludo, no meio dessa moda de homem liso. Era um homem. Um homem cheio de vida, cheio de sangue, sem medo da vida. Sem o medo dos homens comuns. ‘Dançando o baile do medo’ falou Drummond. Ele, não. Teve medo de mim naquela noite. Mas nunca encheu as calças por mixaria como todos os outros panacas. Era livre, sem saber o que significava liberdade. Na real, ninguém consegue definir ‘liberdade’. Fica ainda mais difícil quando não é livre. Nós, presos, ansiando por liberdade e procurando ferozes defini-la. Ele, livre, e ignorando o significado de qualquer palavra que os presos tenham inventado para definir o que não têm. Ele era um homem, era tão homem. Como em ‘O Amante de Lady Chatterley’. Encurralado por todas as exigências e promessas de felicidade que espreitam cada humano registrado. Mas acima delas. E magnético por isso, tão magnético. É absolutamente difícil encontrar um homem. Isso exige do felizardo uma certa qualidade genuinamente animal, e coragem. Assim como ser uma mulher exige. Mas uma mulher mesmo. Se você não é uma mulher mesmo, nem um homem mesmo, nem qualquer outra coisa mesmo, não tem uma animalidade calorosa, é mais um dos zumbis que assolam esse planeta. E eu vi, vivi e sigo entre centenas de zumbis, que me pesam como pesariam milhares. Ele era um homem, e era melhor eu dar enquanto pudesse. Eu sabia que ele ia embora, que ia acabar, sempre soube, e tudo bem. Mas sabia que isso ia acontecer só depois que eu desse. Se não desse, não sei o que aconteceria. Mas seria monótono. Algo pulsava em mim e pulsava nele. Talvez eu fosse mulher. Talvez eu fosse mulher e não um zumbi como todos os outros. Mas afirmar isso é de uma falta de modéstia a que eu não me arrisco. É como o ‘it’. Quando se afirma, não é verdade. O que pulsava precisava explodir, e a vida só seria a mesma e iria em frente (feitas as devidas alterações) depois que explodisse. Eu precisava parar de frear o pulso com ilusões de amor que um dia plantaram na minha cabeça. Eu não ligo pra isso de verdade. Ninguém liga. A gente só constrói prisões o tempo todo porque construímos desde que o mundo é mundo. A gente se aprisiona por inércia de se aprisionar. Mas dessa vez, era muito a perder.
Descrever o joguinho que deu-se até a consumação é impossível. Até porque não era joguinho. Joguinho a gente faz com os panacas, com os zumbis, e quando está sendo controlada pelas ilusões de sempre. Eu simplesmente deixei pulsar. Como quem tira uma máscara. E tirava. Deixei que fosse feito, e fiz. Simples. Tão simples quando a gente pára de pensar e de falar. De falar, principalmente.
De amor, eu abro mão. Mas de um céu como aquele, daquela janela, daquele colchão puído, nunca. Não sei se tenho razão, mas acho que ele confiou em mim, no que eu sentia, no que senti, no que pulsava em mim. Não perguntou se eu ia me arrepender. Não perguntou se eu queria mesmo. Não abriu a boca, como tinha que ser. Perguntou, mais por praxe, se tinha sido bom. Tudo bem, não precisava muita genuinidade, mais do que já tinha sido. Foi o máximo de convenção social que permiti naquela noite.
E foi assim pelos dias ou meses que se seguiam. Não sei muito bem. Não contei o tempo, como continuo não contando. Pra quê? Não ter tempo à vontade por si só é frustrante. Contar tempo é como contar as moedas que não tem no bolso. É ridículo. E acabou, como tinha que acabar. Como eu queria que acabasse. Ficar com alguém em nome de um passado, em nome do que teria que ser, em nome de passar a vida junto porque tem que passar a vida junto e viver uma linda história de amor é o mais baixo que eu nunca pude chegar. E agradeço por ter tanta dignidade. Dignidade pra dar quando quiser. Pra isso, é preciso dignidade, e é por isso que tem tanta mulher ‘de bem’ por aí. Porque ser digno não é pra principiante. Não é simples, pra quem nasce sem ser. Dei sorte. E agora banco isso. E ele sumiu. Como somem os bons amantes, capazes de dar lembranças doces que acompanharão uma mulher até a velhice. E dignos o suficiente pra ir embora antes de serem cobrados, de tudo virar a mais monstruosa bosta, antes de cansar da minha cara, antes de eu cansar da cara dele, antes da magia ir embora, da descoberta acabar, do tesão acabar. Poupar-se um pouco de sofrimento poupando a mim. A vida é como os bons textos. È preciso dar-lhe bons fins, sempre que o fim for necessário. Necessário, antes que tudo caia no tédio onde estão mergulhados todos os ordinários.