O beco do Tonhão. O menino e toda a cidade o conheciam por esse nome. Era uma travessa larga e comprida, calçada, ladeada por um sobrado antigo e por um casarão térreo, talvez mais antigo do que o sobrado. Ele fazia a correspondência entre as duas principais ruas da cidade, uma das extremidades indo dar ao lado da matriz.
Toda tarde, por volta das cinco horas, o menino atravessava-o e, mais tarde, lá pelas oito horas, cortava-o novamente. Era assim: todo dia jantava na casa da avó, ficava brincando com os amigos na pracinha e, quando o relógio da matriz anunciava as oito horas, voltava para casa.
Desde que começara a fazer aquela travessia, via, na ida e na volta, sentado em frente a uma das portas laterais do casarão, que, no entanto, continuava fechada, um velho gordo, de cabelos brancos, segurando uma bengala com as duas mãos, nas quais apoiava o queixo. O menino passava, olhava o velho com um sorriso, que era correspondido. Quando voltava, o velho estava na mesma posição, como se fosse uma estátua. Mas a estátua mexia-se para cumprimentá-lo.
Após algum tempo, o menino não mais viu o velho à tarde. Mas, quando voltava para casa, à noite, lá estava ele na mesma posição. Um dia, criou coragem e aproximou-se.
- O senhor mora nesta casa?
- Agora não moro mais. Mas já morei. Com minha mulher e meus filhos. Estou aqui só de passagem. E você? Quem é seu pai?
- Meu pai é o Haroldo Fernandes Soares. É o coletor federal. Será que ele conhece o senhor?
- Acho difícil. Há muito tempo não vejo ninguém daqui. Só as pessoas mais velhas é que me conhecem. E, agora, você.
- Quando chegar em casa, vou perguntar se meu pai conhece o senhor.
Mas o menino chegou com muito sono e nem se lembrou do velho do beco. Nem naquela noite nem no outro dia pela manhã. Quando entrou no beco novamente, deu-se conta de que nem sabia o nome do velho. Era preciso perguntar.
- Como é o seu nome?
- Antônio Francisco de Queiroz.
- Ah! eu tenho um amigo com este nome: Antônio Francisco de Queiroz Neto.
- Pois é, ele é meu neto.
- Puxa! Ele nunca me disse que tinha o mesmo nome do avô.
- E você alguma vez lhe perguntou?
- Não.
- Então! – O velho abriu um sorriso.
- Seu Antônio Francisco, o meu avô trabalhava em um cartório. Ele diz que era tabelião. E o senhor, trabalha em quê? – Perguntou a curiosidade do menino, agora mais aguçada. Afinal, aquele era o avô de um amigo seu.
- Ah! meu filho, agora não trabalho em mais nada. A idade não deixa. Mas eu tinha sítio, fazenda, padaria, e ainda era alfaiate.
- E o que é um alfaiate?
- É aquele que costura roupa de homem. Mas eu também era músico. Tocava pistom e outros instrumentos mais.
- Puxa! O senhor fazia tudo isso?
- Sim. Fazia. Me diga uma coisa: seus avós ainda vivem? Eles devem me conhecer.
- Seu Antônio Francisco, agora eu preciso ir para casa. Boa noite.
Quando se deitou, e o pai foi lhe dar boa-noite, o menino, já bocejando e com os olhos fechados, perguntou ao pai:
- Pai, o senhor conhece um velho chamado Antônio Francisco de... – Não completou o nome. Adormeceu. O pai sorriu e foi deitar-se.
Naquela noite, o menino sonhou com o senhor Antônio Francisco, um pouco mais novo, acompanhado por uma senhora bem mais nova do que ele. Alta, muito alva, com os longos cabelos pretos penteados em duas tranças, que ela passava uma pela outra atrás, levando as pontas para a frente, onde as prendia com grampos. O menino a achou uma bela mulher, com cara de mãe. E ouviu perfeitamente quando o homem a chamou de Joaninha.
Já acordou falando do sonho. Enquanto tomava café, contou aos pais que sonhara com um amigo, um velho que estava passando uns tempos na casa grande do beco do Tonhão. Os pais, sem entenderem nada, disseram que naquela casa nenhum velho estava passando uns tempos, não. Morava lá só um casal jovem, com filhos pequenos.
- Mas eu converso com ele toda noite, quando volto da casa da vovó.
- Tá bom, meu filho. Tá na hora da escola.
O menino se levantou da mesa, aborrecido. Pegou os livros e saiu batendo os pés no assoalho, atitude que irritava o pai.
À tarde, quando passou pelo beco, o velho estava lá, sentado. Chamou-o e entregou-lhe alguma coisa, enrolada em um pedaço de veludo. Era um pequeno instrumento musical.
- O nome deste instrumento é flauta – flauta transversal. Quero que você fique com ele e aprenda a tocá-lo. Ele foi meu. É muito antigo, mas ainda está bom.
O menino ficou indeciso: aceitava ou não aquele presente? Mas o velho insistiu. Abriu as mãos dele e colocou nelas o pequeno instrumento. O menino, então, agradeceu.
- Seu Antônio Francisco, eu sonhei com o senhor e com sua esposa. O nome dela é Joana, não é? E o senhor a chama de Joaninha, não é?
O velho confirmou com a cabeça e disse que precisava ir embora, naquele momento mesmo, exatamente porque a Joaninha o estava esperando. Chamou o menino para si e abraçou-o. Depois, mandou que ele seguisse. O menino, com o semblante meio triste, deu o primeiro passo para seguir em frente. Mas parou e virou-se para trás. Não viu ninguém, nem cadeira, nem velho, nem nada. E a porta continuava fechada.
O menino perguntou se os avós conheciam um amigo dele, um velho chamado Antônio Francisco de Queiroz. O avô olhou-o com certo espanto e confirmou com a cabeça.
- Conheci, sim, e sua avó também – lançou à mulher um olhar de poucos amigos. Mas ele já morreu há uns bons vinte anos.
- Não pode, vô, o senhor tá enganado, eu falei com ele neste instantinho mesmo. Olhe aqui, esta flauta. Foi ele que me deu. O nome da mulher dele é até Joana, mas ele chama ela de Joaninha.
A avó estava pálida. E, se o marido e o neto a houvessem olhado com atenção, teriam visto seu olhos cheios de lágrimas. Aquele homem a quem o neto se referia fora o grande amor da sua vida.
O avô olhou para a avó e abriu o embrulho, onde realmente havia uma flauta.
- Meu filho, onde você arranjou este instrumento. Quem lhe deu?
- Mas foi o velho do beco do Tonhão. Eu juro!
- Do beco do Tonhão? Você sabe por que aquele beco tem esse nome? É porque nele morava um homem com o apelido de Tonhão. E sabe quem era esse Tonhão? Era exatamente o seu Antônio Francisco de Queiroz. Ele não pode ter-lhe dado esta flauta.
O menino não se preocupou, porque achava que aquela história do avô não era verdadeira. O avô estava louvando, como ele mesmo gostava de dizer. De qualquer maneira, não podia provar nada, porque o senhor Antônio Francisco havia ido embora. Agora, o pai ia implicar com a flauta. Mas ia descobrir um meio de dar um jeito naquela situação. Queria, realmente, aprender a tocar flauta.
Uma flauta de presente
Enviado por Vicência Jaguaribe, dom, 16/05/2010 - 19:47
dom, 16/05/2010 - 20:58
Cara Escritora Vicência, é sempre muito bom ler seus textos.
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