Aquela quadra da rua dividia-se de maneira bastante curiosa. Se tivermos em mente o sentido praia-sertão, do lado direito ficavam as casinhas simples ocupadas em sua maioria pelas famílias dos funcionários da fábrica de óleo. Do lado esquerdo, os pequenos, mas confortáveis bangalôs, habitados por membros da família dos donos da fábrica.
As do lado direito eram casas de porta e janela, com uma sala de entrada, um quarto com uma janelinha baixa que dava para uma área interna, um minúsculo corredor que desembocava em uma sala, à qual se seguiam mais três compartimentos – eram outras salas ou quartos? Sem dúvida, multifuncionais, serviam durante o dia como salas e, à noite, como quartos. Depois, vinha a cozinha e uma minidespensa, que, se necessário, serviria de dormitório. O banheiro ficava fora da casa, mas não no quintal, que, para aquele tipo de habitação, quintal era luxo. Ficava em um pequeno espaço descoberto, que funcionava como área de serviço, ou melhor, como local de lavar roupa.
Os pequenos bangalôs, pintados todos de branco, tinham um reduzido jardim, que recuava um pouco a porta de entrada, ao lado da qual ficava a garagem, que os mais abastados já possuíam carro. Aquelas residências não tinham nada que fizesse lembrar o sentido original do vocábulo bangalô, ou o sentido primeiro que ele adquirira ao ser importado no Brasil. Na Índia, a palavra nomeava uma casa, geralmente de madeira, circundada de varandas. No Brasil, primeiro, deu nome a casas de campo ou a casas urbanas similares na arquitetura ao bangalô indiano. Depois, por extensão de sentido, passou a designar qualquer casa de bom aspecto, assim considerada por quem a julgasse. Alguns poucos daqueles bangalôs eram assobradados.
De maneira geral, a separação entre as famílias que moravam à direita e as que moravam à esquerda não era muito acentuada. As crianças de um lado brincavam com as crianças do outro lado. Mas a diferença se expressava nas roupas, na comida e no colégio em que estudavam. E, principalmente, nos presentes que recebiam de Natal.
Em um desses pequenos bangalôs, morava um médico, que mantinha relações de amizade com os que habitavam a casinha de porta e janela, em frente ao seu bangalô. A dona da casa era do interior e, de vez em quando, recebia familiares, criança e adultos. Daquela vez, viera sua irmã, o marido e os três filhos do casal – duas meninas e um menino.
O menino, o mais novo dos três, admirava-se de tudo. Por isso abriu desmesuradamente os olhos, quando viu uma bicicleta infantil dirigida por um menino que habitava o lado esquerdo da rua; abriu a boca, quando viu uma menina, também moradora do outro lado da rua, andando de patins na calçada; e soltou um oh!, quando viu o portão do bangalô de frente se abrir, um carro branco entrar e sumir-se na semiescuridão da garagem. Naquela noite, o menino sonhou que a tia mudara de lado – isto é, passara a morar em um dos bangalôs da esquerda – tinha um carro e dera-lhe de presente uma bicicleta e uns patins.
Acordou muito cedo e, com cuidado para não incomodar os primos que dormiam na sala da frente, abriu a porta, fechou-a e sentou-se no batente. Queria ver quando o doutor saísse. Queria sentir o prazer de apreciar aquela beleza de carro. Será que, um dia, o pai teria um – igual, não, era impossível – parecido? Ele se imaginava sentado ao lado do pai, passeando pelas ruas de sua cidadezinha. Primeiro, iam só os dois, ele e o pai. Depois, chamaria os amigos, e o pai percorreria toda a cidade com o carro cheio de criança. As irmãs não iam não, que carro é coisa pra homem.
Voltou à realidade, ao ouvir o barulho do portão abrindo. O doutor tirou o carro da garagem, deixou-o ligado e saiu do veículo para fechar o portão. O menino, num impulso incontrolável, correu de seu posto de observação e pendurou-se na traseira do carro. O motorista dirigiu uns dez metros. Não mais que isso. E o menino caiu. Mas um pedaço da blusa do pijama ficou preso no carro, de modo que ele foi arrastado pelo calçamento, até que algumas pessoas que passavam pelas imediações gritaram. O médico parou o carro e, assustadíssimo, apanhou o menino, que ganhara algumas escoriações. E chorava. Talvez mais por medo do que pelos ferimentos.
O doutor reconheceu-o, mas levou-o para a sua própria casa. Examinou-o. Nada de grave. Desinfetou os arranhões e mandou a mulher chamar a tia do menino. Alguns carões, algumas brincadeiras, e ele estava pronto para outra.
Durante os dias seguintes, ele foi vigiado, para que não aprontasse outra daquelas. Nem precisava, porque o menino desviara os olhos e os sonhos para outros focos. Por exemplo, para o Circo Garcia, que se apresentava em Fortaleza e do qual assistira a uma função. Iria fugir com aquela trupe itinerante. Ora se iria!
Os sonhos do menino
Enviado por Vicência Jaguaribe, ter, 18/05/2010 - 08:55