São Paulo, 20 de outubro de 2004
Excelência, o que me leva a escrever para o senhor é para solicitar que tome uma providência. Eu acredito na justiça e sei que Vossa Excelência tem a capacidade de mudar esta situação. Veja o senhor, Jurema, minha ex-esposa, não está cuidando de meu filho como deveria, o que é obrigação sua. Uma vez que tem a guarda dele, se ele está aos cuidados dela, tem por obrigação dar atenção, dar educação e tratá-lo condignamente. Ela está saindo de casa com o menino, por volta de sete horas da manhã, sabe para quê? Para mendigar. Ela usa o menino para isso, retorna para casa bem no finalzinho da tarde, quase de noite. Traz vários objetos e algum dinheiro. Ela não escolhe o clima: pode ser com chuva, com sol, com vento, com frio, ou calor. Isso não a preocupa, Excelência. Eu penso na saúde do menino, que já não é das melhores. Outro dia fui visitar o meu filho. Os dois estão morando de aluguel nos fundos de uma casa. Uma edícula de apenas um cômodo, com o banheiro separado da casa que é usado por várias pessoas. O que tem de mobília é apenas uma mesa, duas cadeiras, uma cama de casal com colchão, uma pia e um fogão de duas bocas. Não tem luz elétrica, utilizam luz de velas. Não sei como fazem comida! Naquele dia estavam sem gás, não sei como sobrevivem naquele aperto e naquelas condições. Ela não tem controle sobre a criança, o menino está se tornando teimoso e birrento, ela não lhe dá limites e isso o torna mal-educado e desagradável. Eu soube pelos vizinhos que ele agora é que impõe as coisas a ela. O senhor já pensou? Um menino de quatro anos de idade, o senhor já imaginou como está sendo formada a sua personalidade? Quando ela vai atrás de trabalho leva consigo o garoto. Isso faz com que fique mais difícil arrumar emprego. Quem vai dar emprego a uma mulher com um guri perigoso daqueles? Ela sai com o menino no colo, passa o dia todo batendo pernas e acaba usando o próprio filho para pedir esmolas e mendigar. Eu não quero isso pro meu filho, acredito que pedem restos de comida em restaurantes, lanchonetes ou até mesmo em casa de família. Muitas vezes foi vista às margens da rodovia mostrando ao menino o movimento dos carros. Isso me preocupa mais ainda, pois sei o quanto ele é sapeca e desobediente. Numa dessas é capaz de sair correndo e ser atropelado por um veículo. Meu Deus! Que horror seria! Tenho medo, Excelência. Tenho medo do que pode vir a acontecer com meu filho. Outro dia ela ganhou de presente um isqueiro. O senhor imagina, ela deu para o menino brincar! O senhor já pensou no perigo que isso representa? É capaz de se queimar, ou de provocar um incêndio na casinha onde moram, ou em qualquer outro lugar. Uma amiga, a Greici, me contou, e disse que até fica de testemunha, que quando voltava do trabalho pela manhã passou em frente ao Largo São Bento e viu o menino juntando uma ponta de cigarro aceso e colocando na boca, enquanto a mãe dele falava com um homem e nem prestava atenção no garoto. Além de tudo isso, Excelência, ela ainda fala mal de mim. Diz que não dou assistência. Mas veja o senhor: no começo aceitei em ter os dois na minha casa, mas me arrependi. Ela não me entende, e o menino está ficando malcriado e insuportável. Suas birras e manias colocadas pela mãe se tornaram um problema sério. Por várias vezes tive que dar no menino umas palmadas. Depois me arrependi, bater em criança me corta o coração. Eu sei que o menino está crescendo sem respeito e sem limites, mas também, Excelência, não posso ficar com a guarda dele. O meu trabalho me impede de cuidá-lo. Ela também não iria me deixar em paz. Seria capaz de querer visitar o menino todos os dias e isso poderia atrapalhar o meu casamento, mas por outro lado penso que a mãe, a Jurema, não tem a mínima condição de ficar com a criança. Eu sugiro, Excelência, que nosso filho fique com uma de minhas duas irmãs, uma mora em Porto Alegre e a outra aqui em São Paulo. Ambas têm boas condições financeiras e moral para ficar com a guarda do Lucas e lhe dar uma boa educação. Jurema está contente apesar de tudo, pois está com a criança. Eu sei que é difícil separar o filho da mãe. Eu sei que vai ser doloroso para ela e até para ele também que é criança e não sabe de nada. Mas é pensando no futuro dele que estou lhe pedindo. Há outra coisa, Excelência, eu soube que ela está recebendo o namorado em casa. O senhor já imaginou como é o clima naquela casa de apenas um cômodo? Às vezes penso: “Será que se relacionam perto do menino?” Soube também que seu atual namorado não tem um bom comportamento (se bem que não posso falar, mas pelo menos nunca me envolvi com problemas com a justiça e polícia, enquanto ele é ex-presidiário). Por isso e por muito mais, Excelência, é que venho até o senhor e pedir pelo amor de Deus que tome uma providência. Minha ex-esposa não pode continuar com a guarda daquele menino. É bem capaz de ela colocar a perder essa criança! Recorro então à capacidade e poder de decisão que lhe foi confiado e solicito de coração que tome uma decisão sábia. Encaminhe o menino a uma de minhas irmãs, pois ele não pode continuar com a mãe, no estado em que se encontra, na maneira como está levando a vida. Também não posso trazê-lo para morar comigo, não tenho paciência para cuidar de uma criança, e também isso causaria um grande transtorno no meu casamento. Sabe, Excelência, o Antonio, meu companheiro, é muito chato. Ele não aprovaria essa idéia, e também não seria um bom pai para o meu filho. Atenciosamente, Keiti.
Uma carta ao Juiz
Enviado por J.Machado, ter, 25/05/2010 - 12:56