Doía-lhe mais do que a fome, mais do que o trabalho estafante em cima de uma máquina de costura. Doía-lhe mais do que ver os filhos irem à escola sem almoçar. Doía-lhe mais do que não poder vestir os filhos decentemente. Doía-lhe mais do que ver os filhos aproveitarem os livros usados dos parentes e conhecidos. Doía-lhe mais do que ver os filhos sentados no chão, fazendo tranças de rede, depois de uma tarde cansativa na escola. Doía-lhe mais do que ter de costurar à noite, à luz da lamparina, prejudicando a vista. Doía-lhe mais do que, de vez quando, ter de mandar os filhos para a casa da irmã, que vivia em boas condições financeiras. Doía-lhe mais do que a tosse e a febre que lhe anunciavam fraqueza no pulmão. Doía-lhe mais do que ver o marido chegar bêbado em casa e brigar com os filhos. Doía-lhe mais do que parir um filho todos os anos, com a certeza de que não poderia alimentá-lo direito.
Nada disso lhe doía tanto quanto chegar o Natal e não poder dar uma boneca às suas meninas. Nada disso lhe doía tanto quanto chegar o Natal e não poder dar um carrinho ou uma bola aos seus meninos. Nada disso lhe doía tanto quanto ver chegar o aniversário dos filhos e das filhas e não poder ofertar-lhes um brinquedo qualquer – um jogo, um quebra-cabeça, uma peteca, um livro de histórias.
Nada era mais doloroso do que ver seus meninos e meninas rodeando as barracas de brinquedos, assistindo aos pais dos amigos comprarem brinquedos para os filhos. Nada era mais doloroso do que ver, na manhã do dia 25 de dezembro, seus filhos – que não haviam recebido a visita do Papai Noel – olharem os amiguinhos nas calçadas expondo os presentes que o bom velhinho lhes trouxera. Nada era mais doloroso do que ver suas crianças de olhos compridos para a bicicleta, para o bambolê, para o ioiô de um amigo.
Mas o que era mais doloroso mesmo, mais do que qualquer dor que já lhe havia doído – mais do que a dor física de botar cada filho no mundo, ou a dor psíquica de perder um filho, o pai e a mãe, experiências pelas quais já passara – era ver, na capital, as vitrines das lojas especializadas em brinquedos. Cada bonequinha que falava expressava a vontade de suas filhas de terem uma bonequinha igual. Cada par de patins ou cada bicicleta que se expunham lembravam o desejo de seus filhos de voarem no voo da felicidade.
E, quando ela ia a Fortaleza, passar temporadas na casa de uma parenta, para descansar da vida trabalhosa que levava, ou recuperar-se de alguma doença, e via uma vitrine repleta de sonhos infantis, as lágrimas ameaçavam descer. Em um dia desses, quando a dor doeu forte demais, ela virou-se para a parenta e deixou que ela percebesse toda a mágoa acumulado nos longos anos de mãe:
- Devia haver uma lei que proibisse as mães pobres de verem vitrines de lojas de brinquedos.