Vi, no Jornal Nacional, uma cena inimaginável, pelo menos para mim: pinguins sozinhos ou em bando, circulando por um centro urbano e até atravessando uma rodovia. Logo eu, que, na minha santa ignorância, na minha vergonhosa carência de conhecimentos gerais, pensava que pinguins só viviam nos polos. E o mais surpreendente – para mim, repito – é que a cena foi gravada na África do Sul. E eu, meu Deus dos ignorantes, nem desconfiava que na África existissem regiões onde a temperatura chegava a zero ou mesmo a um ou dois graus negativos, e até podia nevar.
Acostumamo-nos a ver a África como o continente do sol, o continente dos desertos, o continente do grande Saara, onde os hebreus passaram quarenta anos perdidos. Para nós, a África é a África na qual Agá, por vontade de Deus e por exigência de Sara – Expulsa esta escrava com o seu filho, porque o filho desta escrava não será herdeiro com meu filho Isaac –, foi banida do seio de Abraão com o filho Ismael, que quase morre de sede sob o sol escaldante.
Para nós, leigos na ciência dos estudos da terra e de seus climas, a África é a África de onde vieram os escravos negros. E, segundo aprendemos depois, os traços físicos da negritude decorriam da exposição por milênios ao clima daquelas terras. Aqueles traços eram, pois, uma adaptação ao clima do ambiente hostil em que viviam. E, segundo consta nas pesquisas modernas, todos os indivíduos da espécie Homo Sapiens tinham essas características. Depois, com as levas migratórias, quando a humanidade começou a deslocar-se para climas mais frios, para se adaptar a exigências climáticas diferentes, é que foram adquirindo outros traços.
Em reportagem recente da revista VEJA, com o sugestivo título Unidos pelo futebol... e pelo DNA, que mostra como são sem fundamento as teorias racistas, lê-se o que segue:
O Homo Sapiens tinha uma população inteiramente formada por indivíduos de pele escura quando saiu da África. As variações genéticas que tendem a produzir pele clara certamente ocorreram indistintamente em todos os contingentes humanos. Mas elas só se firmaram como mutações vantajosas para os grupos humanos que foram povoar as latitudes mais baixas do globo terrestre, onde o efeito protetor da melanina, o pigmento que dá cor escura à pele é desnecessário – e até prejudicial por filtrar a fraca insolação das regiões frias, impedindo a absorção da vitamina D garantida pelos raios ultravioleta da luz solar
A África que conhecemos, ainda, é a África famélica, marcada por secas periódicas, esperando a boa vontade e o bom alimento dos países ricos, para não desaparecer da face da Terra levada pela desnutrição.
A África que conhecemos, finalmente, é a África cantada por Castro Alves, a África do poema “Vozes d’África”, que a situa na antessala do inferno, como diria minha avó:
Mas eu, Senhor!... Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro... bebe o pranto a areia ardente;
Talvez... p’ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão...
É uma África que, climaticamente, está mais para o calor sufocante das regiões mais áridas do Nordeste brasileiro do que para o frio europeu:
Eu nem tenho uma sombra de floresta...
Para cobrir-me nem um templo resta
No solo abrasador.
Quando subo às pirâmides do Egito
Embalde aos quatro céus chorando grito:
“Abriga-me, Senhor!...”
E ficamos – ou eu fiquei – nesse patamar de conhecimentos incipientes sobre o grande Continente que, hoje, sabemos, é o berço da humanidade. E restamos todos de queixo caído, diante de uma África trazida até nós por obra e graça da Copa do Mundo de Futebol. Estarrecemo-nos vendo os repórteres da Rede Globo trajando os modelitos europeus de inverno, de cachecol, de casaco e de luvas. E admiramo-nos ao saber que o intenso frio presenteou a Fátima Bernardes com um problema de garganta que a levou a ser substituída por outro apresentador. E vemos, quase sem querer acreditar, os jogadores com um uniforme especial de mangas compridas e até de luvas. E apreciamos boquiabertos, a fumacinha escapando da boca desses jogadores.
E, para completar, nos últimos dias, tivemos a visão dos pinguins, que deve ter estarrecido não só a mim, mas a muita gente.
Bem, caros brasileiros fashions e endinheirados, deem um pouco de descanso a Bariloche. A partir de agora, brinquem de europeus também na África do Sul.