É interessante constatar a quantidade de "Deus" de que se ouve falar! Não se trata aqui dos nomes que Lhe são atribuidos, tampouco existe uma referência aos deuses pagãos das mitologias ou a qualquer outro deus, mas sim dos diversos aspectos, objetivos e comportamento da divindade.
O deus que permeia sobretudo as crenças judaico-cristãs é o "Deus" de Abraão, Isaque e Jacó e também de Moisés que, entre todos os Seus escolhidos, foi aquele que mais intimamente O conheceu, chegando a tornar-se mesmo Seu porta-voz. Deus é o criador, o legislador e o juiz da humanidade: o Todo-Poderoso. Não é um deus qualquer. É o único a quem chamamos "Deus". E tem-se apenas esse "Deus". Não existe outro. Nenhuma outra divindade é tida como sendo superior a Ele dentro da Sua própria história. Nem mesmo o cristianismo coloca Seu filho único acima Dele, pelo contrário, submete-o à vontade do seu pai que é Deus, segundo às próprias Igrejas cristãs.
A história também nos conta que inúmeras religiões e cultos espalhados pelo mundo tiveram suas doutrinas adaptadas a fim de reverenciarem esse único "Deus".
Aceitar o "Deus" único, em todas as culturas monoteístas, implica aceitar que Sua palavra é eterna e imutável e nada pode ser acrescentado ou subtraído do conteúdo geral dos relatos a Seu respeito.
Desse modo, não pode existir um Deus diferente daquele que nos é apresentado nos livros sagrados. Não existe um "Deus" que não tenha expulsado Adão e Eva do paraíso.
E uma crença não pode excluir a outra. Não se pode separar a ação do agente sem correr o risco de eliminá-lo também. As ações são, nesse caso, os veículos através dos quais tomamos ciência do agente, ou seja, só conhecemos Deus através de suas ações descritas nas histórias sobre ele consideradas verdadeiras. Por isso, não se pode dizer que Adão e Eva são personagens lendários sem incluir os elementos que lhes dão vida.
E se se puder observar atentamente com que agilidade Deus é substituído por Jesus em algumas religiões, mais depressa podemos notar que Ele está sendo esquecido junto com Sua história. A interpretação da palavra de Deus então dá lugar à interpretação do Evangelho, já que é impossível conciliar a imagem de um deus que foi incapaz de perdoar o pecado original com uma divindade misericordiosa atenta para as necessidades do mundo atual. Assim, Deus tem Sua palavra e suas ações cada vez mais ignoradas, principalmente quando não se quer exaltar as particularidades de uma divindade que protege um povo em detrimento de outros não incentivando assim, a colaboração mútua entre os homens.
Poderia esse fenômeno estar mascarando considerações lúcidas naqueles que se recusam admitir que não aceitam Deus como Ele é no meio de tantas interpretações?
Contudo, nada disso parece ser levado em consideração quando se trata de descrever "Deus".
Não se pode precisar se pela necessidade de acreditar num gestor invisível que norteie suas vidas ou simplesmente para ser aceito numa sociedade onde os rótulos falam pelos valores, mas obviamente existe um motivo, podemos observar pessoas tentando compor sua própria imagem do Criador quando se ouve "Deus pra mim é isso e Deus pra mim é aquilo" ignorando parcial ou mesmo completamente a única identidade de Deus da qual se tem conhecimento.
Assim, presenciamos a gênese de um novo "Deus". Um "Deus" nascido da imaginação; facilmente adaptável aos valores de cada um: em alguns casos, justo, especialmente quando a justiça é feita em favor do Seu imaginador, noutros, bom, quando salva uma vida entre tantas outras que se perdem na ocasião de um evento desastroso; em outros ainda, fiel quando dá lições de moral ao vizinho para vingar uma janela quebrada do Seu protegido. Enfim, cada qual cria seu próprio "Deus" com as características que melhor lhe convém. Então, nesse momento, Ele Se multiplica, transveste-Se e Se reforma tornando-Se assim um "Deus" que Se rende aos profundos anseios dos imaginadores que ficam tão apaixonados por suas idéais do Criador que passam a lutar por elas com unhas e dentes para provar que o seu "Deus" é melhor que o dos outros, sem parecerem, no entanto, satisfeitos por amarem seu "Deus" sobre todas as coisas.