Eu fizera um óptimo trabalho: o antes e o depois do soalho da minha sala estavam indiscutivelmente iguais. Apenas Sónia, a minha vizinha do lado esquerdo, podia descobrir o meu segredo. Ela visitava-me todos dias, e não acreditava que a minha mulher me abandonara. Mas eu não podia me livrar dela: há muito que tinha planos com ela.

O marido sabia das visitas mas, estranhamente, nada fazia, apenas deixou de me convidar para sair para as bebedeiras e para as putas. Pouco depois, soube que ela agia assim por julgar que eu sabia do caso que ele tivera com a minha mulher, e considerava que eu e sua mulher tínhamos o direito de nos vingar.

A situação tornava-se cada vez mais insustentável. Mais eis que numa das minhas madrugadas de insónia alguém me bateu a porta. Abro a porta e vejo a minha vizinha. Olhava-me com uma cumplicidade que nunca tínhamos tido. Fiquei mais assombrado quando, descendo o olhar, vi que suas mãos e sua blusa estavam manchadas de sangue.

- Como é que você fez com ela? – disse ela, apontando para o exacto lugar onde eu sepultara a minha mulher.

Sem saída, fui tratar do infeliz.

Finalmente livres e desimpedidos, vendemos as nossas casas e nos mudamos para a cidade vizinha.

Vivemos felizes. É claro que primeiro destruímos os soalhos de todos compartimentos da casa para nos certificarmos de que não havia nada enterrado. Com o mesmo fiz sabotamos a rua para que fosse reconstruída.