Foi isto exatamente o que pensaram os dois amigos, quando se encontraram na calçada tomando banho de chuva. Tinham ambos dezesseis anos. Tinham também a mesma cabeça e o mesmo pendor para a marginalidade. Já haviam, inclusive, incursionado pelas veredas tortuosas do crime, umas duas ou três vezes. Os dois pensaram exatamente a mesma coisa: o dia estava bom para umas investidas, com o engarrafamento das grandes avenidas e dos cruzamentos. A cidade amanhecera alagada. Chovia desde a madrugada, e quem olhava para as pesadas nuvens que encobriam o sol tinha certeza de que viria mais chuva. Tiveram o mesmo pensamento, ao mesmo tempo. Um olhou para o outro. Olhar de compreensão e de cumplicidade. Pegaram uma bicicleta estacionada embaixo de uma árvore. Foi só o tempo de um assumir a direção e o outro pular na garupa. Zarparam, deixando escapar um grito de guerra, abafado pelo barulho da chuva.
Há alguns dias, a polícia estava de olho neles. Andavam de bicicleta – uma única bicicleta – um levando o outro na garupa. Moravam nas imediações de duas grandes avenidas da cidade, em uma área nobre, que, há décadas, fora ocupada por famílias sem teto. Formavam uma comunidade de má fama, que amedrontava a vizinhança, toda de classe média alta. Era o famoso Campo do Maguari, que, nos últimos anos, vinha perdendo as características de favela e, que, como toda comunidade daquele tipo, misturava trabalhadores honestos com malandros e marginais, que se encarregavam de preservar a má fama do local.
A aventura levou-os ao cruzamento da grande avenida que concentrava o comércio mais chique da cidade com uma artéria menor, mas não menos importante. Estava tudo como haviam imaginado. O trânsito escoando devagar, mais devagar do que a água. Os carros de luxo misturados com os carros populares tentando vencer a enxurrada e provocando ondas que molhavam os transeuntes, os quais nem reclamavam porque já estavam encharcados. Parados nas imediações do sinal, sem camisa, pareciam dois meninos inocentes que aproveitavam a chuva para se divertir. Mas estavam de olho no carro grande azul marinho, que se aproximava, e torciam para que o semáforo fechasse na hora exata. E fechou. Exatamente no momento em que a chuva amainava e os motoristas relaxavam e abriam um pouco o vidro dos carros.
Os dois aproximaram-se preparados para a abordagem. O primeiro tirou de dentro do calção a faca que trazia sempre grudada ao corpo. O outro empunhou um porrete empurrado pela água que escorria na sarjeta. O motorista assustou-se com a pancada forte no vidro do carro, que não resistiu ao impacto. E sentiu o frio da lâmina no ombro. O instinto de sobrevivência e de defesa não lhe permitiu perder tempo. Em um movimento rápido, ele empunhou o revólver meio escondido entre os dois assentos dianteiros e atirou. Atirou meio às tontas, sem mirar.
Os assaltantes não tiveram tempo de avaliar de onde vinha o tiro. Quando ouviram o estampido, já estavam no chão, o sangue de um misturando-se com o sangue do outro. A bala atravessara a mão do que empunhava a faca e alojara-se no pescoço do outro. O primeiro, segurando a mão pintada de vermelho, chorava de dor e de medo, encostado no muro. O segundo jazia meio inconsciente e não tivera tempo de perceber o que acontecera. Via-se entrando em casa com o amigo, depois do banho de chuva. E a mãe servia-lhes café com leite quente e doce.
Quando a polícia chegou, depois de vencer o mar de água em que a cidade estava transformada, o motorista do carro – um advogado com porte legal de arma – havia ido embora na tentativa de livrar o flagrante. Ao redor dos dois pequenos marginais, uma pequena aglomeração. Eram pessoas que, no íntimo, não lamentavam a reação do motorista. Todo mundo estava cansado da ameaça que pairava em cada esquina, em cada sinal. Os agentes algemaram o garoto alvejado na mão, sem se importar com o sangue que ainda gotejava. Quando se aproximaram do outro, não houve mais necessidade de usar algemas – aquele havia partido com a visão ingênua da mãe amorosa servindo-lhe café com leite doce e quente.