Tento trabalhar e não consigo. Fazer a revisão de um texto com data pré-fixada. Redigir a ata da última reunião do condomínio, que o síndico já me cobra há algum tempo. É uma preguiça mental sem limites. É um desânimo psíquico sem tamanho.
Olho para o lado e lá está o telefone na base. O que eu queria mesmo, neste exato momento, é que o telefone tocasse – alguém que tivesse premente necessidade de me falar, nem que fosse para me cobrar uma dívida. Mas não, ele continua mudo. Há poucos minutos disquei a uma amiga, para perguntar-lhe pela saúde. Mas foi um papo rápido. Não temos mais o que conversar. Ou pelo menos não tivemos naquele momento. E eu continuo a esperar que algo aconteça.
Mais uma vez olho o telefone e vem-me, do fundo da memória, uma frase ou um pedaço dela: “O telefone é um objecto”. Sim, tenho certeza de que é objecto, com essa grafia, mesmo. Lembro-me de que o autor – ou autora, não sei – diz no texto que faz questão de escrever assim, pois “o c é o osso duro do telefone”. Quem disse isso? Não sei. Ele ou ela? Não, não foi ele, foi ela: Clarice Lispector ou Lygia Fagundes Telles. Que memória disgraziata! Porca miseria! E eu já trabalhei esse texto muitas vezes em minhas aulas de Estilística.
Vou ao Santo Google e encontro o texto: “História de coisa”, de Clarice Lispector. E a frase é exatamente como eu me lembrava: O telefone pertence ao mundo das coisas. É um objecto vivo - faço questão de que seja "objecto" e não "objeto". O "c" é o osso duro do telefone. Ele é um ser doido. É valsa de Mefistófeles. A autópsia do telefone dá pedaços de coisas. É uma crônica, e a autora fala de sua relação com o telefone – um aparelho que não atende quando se disca; que não toca quando se quer; que toca quando não se pode atender. Aliás, para a autora, o telefone é muito mais que um objeto, é um ser vivo – um ser solitário, que mantém segredo. Ela chega a dizer que ele é infeliz; às vezes, até entra em desespero e dá uma notícia ruim, pegando-nos de surpresa; mas pode também nos dar boas notícias.
Mas o telefone, amiga Clarice(1), apesar de ser um objecto nos oferece a possibilidade de pelo menos tentar fugir da solidão. Não foi o que fiz há pouco tempo, quando telefonei para uma amiga? A cronista também se serve do telefone para este fim:
E quando o telefone nunca toca? A grande solidão: eu olho para ele e ele olha para mim. Ambos em estado de alerta.
Até que não aguento mais e disco o número de um amigo. Para quebrar o silêncio grande.
É isso. Se o telefone nos oferece a possibilidade de fugir da solidão, também ele, criando essa expectativa, aumenta a sensação de solitude, inerente a todo homem. Desculpem-me, e a toda mulher também, para não ser politicamente incorreta.
Há uma passagem da crônica em que Clarice Lispector define maravilhosamente o telefone: O telefone é uma estrela. Ele se estrela todo estridente em gritos ao soar de repente em casa. Observe-se o trabalho que a autora faz com os fonemas – no caso, o encontro consonantal tr, que imita o som do telefone. Mas observe-se também a metáfora da estrela: a impressão que se tem, realmente, quando o telefone toca, é de alguma coisa que se derrama, se espalha em som, como se espalha, se propaga, se irradia a luz de uma estrela. E, como uma estrela, que espanta a escuridão, o telefone, no momento em que toca, espanta a solidão, mesmo que a ligação não se complete. Nesse momento, temos a certeza de que não estamos sozinhos no universo. De que do outro lado da linha há alguém. E que, assim sendo, nossa solidão pode acabar. Só ilusão? Pode ser. Mas, quando se está no mato sem cachorro, qualquer vira-lata serve.
Pronto, ativei os neurônios. A preguiça mental ameaça ir embora, e o desânimo psíquico parece ter ido dar às de vila-diogo. Bendito telefone! Ou, pelo menos, bendita visão do aparelho telefônico, que me lançou e conduziu nesse emaranhado de raciocínio.
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(1) Meu Deus! Esta palavra – amiga – é a quarta tentativa. Primeiro, escrevi prezada, mas achei que ela, de certa forma, ecoava apesar; depois, tentei cara e caríssima, mas lá estava Clarice. Eu, hein!